terça-feira, 20 de outubro de 2015

EMPARELHA

Resultado de imagem para paralelasO som do vento no mato,
Assemelha-se ao das águas no riacho,
E emparelha a infância que eu tive
À infância... em que me acho.

O mato na doce relutância de envergar-se,
A cabeça do afago a esquivar-se...

O som do vento no mato traz-me
O lento esvair do tempo no tempo que a alma conta.
Como se a vida estivesse pronta,
Sem arestas, sem pontas,
À espera do meu pensamento.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

SALA DE ESPERA

Amigo leitor, esta coluna pretende-se uma pequena pausa no veloz ritmo que rotineiramente nos é imposto; um sopro no quente copinho de café enquanto intui-se um pensamento bobo, qualquer, despretensioso.  Nem mais, nem menos.
            Dito isto, ocorreu-me a lembrança do que observei, dia desses, numa sala de espera. Como se sabe – salvo exceções – as salas de espera nos colocam em estranhas situações: pescoço levantado para ver a televisão que chuvisca; pescoço abaixado para ler as revistas em que chuviscam socialites em seu mundo diverso, Photoshópico. Um meio sorriso para a senhora do lado, um bocejar contido pelas mãos, um menear de cabeça a discordar da notícia que se leu e, assim passa – muito devagar e numa desconhecida dimensão – o tempo nas salas de espera.
            No sofá em frente, um senhor: óculos de lentes não muito espessas, armação sóbria e escura, bigode com fios grisalhos e desalinhados, pele curtida pelo sol, sandália tipo franciscano, gasta; calça social, camisa quadriculada com finas linhas na horizontal, um pouco mais grossas na vertical e em graduação de cores, com fundo branco; gola – uma em pé (como orelhinhas de cachorro) outra deitada – cabelos por cortar, penteados com creme e para trás, onde as ondas teimavam em não lhe obedecer. Suas mãos: calejadas, não se fechavam. Mãos sempre abertas, senhores!
            Mas ele - não lhe disse amigo leitor - tentava ler uma revista. Pois bem. Folhear uma por uma, as páginas, mas (que pena!)... não conseguia. Suas grossas digitais não lhe permitiam tal suavidade. A cada vez que ousava tentar, diversas folhas se passavam juntas, como os dias de sua vida, suponho... Pobre senhor (poderíamos deduzir)! Lia e relia, indefinidamente, a capa da revista. De fato, ele é quem tinha estórias a contar...
Senti pena, porém ele... sorria. Se vivo fosse, um grande amigo diria que ele “ria que nem manteiga”. Tinha uma sabedoria silenciosa, monástica e uma realeza que vai além do vão glamour. Rico senhor (diríamos, agora, sem sombra de dúvida!)! Parecia, ao olhar as revistas, sentenciar: “Há pessoas tão pobres, mas tão pobres, que só têm dinheiro...”

            A vida é um pouco assim, paciente leitor: dia após dia, trabalhando tanto e tanto mais, às golfadas o tempo vai engolindo as horas, engrossando nossas mãos, calejando-nos o coração. Mas isso é outra conversa...

(Publicado no Jornal CORREIO COMERCIAL da Associação Comercial e Empresarial de Barra do Piraí - Coluna "PAUSA PARA O CAFÉ").

HERÓIS ANÔNIMOS

Para Emanoel Xavier Bittencourt.

         Desorganizados, uni-vos! Não tão próximos, para que não pareça algo previamente organizado.
         Somos, senhores, a alegria do mundo! Heróis anônimos, sem rosto, sem reconhecimento público, sem medalhas, sem triênios ou quaisquer adicionais por tempo de serviço. Fazemos da vida uma eterna redescoberta daquilo que uma vez achamos e que perdemos logo em seguida. Ou vice-versa.  Somos os príncipes da surpresa! Surpreendemo-nos a nós mesmos! E lembramo-nos apenas de... esquecer.
         É; somos boas criaturas. Temos bom coração. Livres, independentes. Na verdade, esquecemos quase tudo: a ingratidão, os rancores, as mágoas e o dinheiro também.
         Nós, os desorganizados, somos românticos! Sim, cavaleiros de capa e espada. Sempre nos apaixonamos! Quase que semanalmente... Mas, por quem era mesmo? Bem, isso não vem ao caso... O destino (este sim, vilão miserável e arquiinimigo terrivelmente organizado) guarda-nos apenas a solidão e as marginais, periféricas e suburbanas avenidas.
         Mas não entristeçamos: temos olhos e ouvidos para as coisas simples e belas. Observamos atentamente o curso do Rio Piraí, o canto dos canários, o vôo das andorinhas, o acorde que magistralmente destoa do padrão e nos faz, prazerosamente, encolher os ombros. Assistimos aos gols do Flamengo como se nossos fossem e ao nasceres e pores-do-sol na Serra das Araras (como se fossem nossos). Somos felizes na alegria dos outros e, empáticos, lamentamos o pesar alheio como soldados da esperança feridos na própria carne.
         Sabemos que a bagunça do quarto, os discos empilhados, aquela carta por responder, extratos bancários, fichas telefônicas, livros emprestados, números de telefones, relógios sem bateria, apenas um pé de meia, reclames do chefe, recortes de jornais, cartelas vazias de aspirinas, elásticos arrebentados, clipes tortos e aquela caneta-fantasma que, há um minuto estava em cima do criado-mudo(!), de forma alguma nos desmerecem.
         Os mil compromissos assumidos e não cumpridos não revelam pouco caso, senhores, definitivamente... quase. É antes um desejo de nunca recusar nada a ninguém. Sim, tentamos ser agradáveis e disponíveis. Desagradável e impiedoso é o tempo, primo-irmão do destino! Tão certinho, como um chato com lupas, chega a nos causar pruridos! O tempo, as horas e os minutos não são caridosos. “Os dias são maus”, nos adverte a Santa Escritura, corroborando-nos.
         Aquele maço de cigarros vazio, que há três dias está embaixo da janela, merece profundo respeito. À insônia, em baganas a transbordar o cinzeiro, fez companhia... Somos, com efeito, baganas do que fomos; senhores, filtros impregnados de nós mesmos.
         Mas não nos abatamos! Forçados pela incompreensão e pela Receita Federal, às vezes esboçamos uma lágrima, embaça-se, dolorosamente, os olhos.  Porém, se acaso dela precisarem para regar uma flor: cá está!
         Sim, somos profundamente crédulos no impossível, no improvável, no gol aos 45, no amor aos 90 e no bilhete da Federal! Dizemos ter “estrela”, mas no fundo, acho que Deus gosta de nós...
         Assim, os desorganizados, desligados, esquecidos, atrasados e tantas outras fabulosas criaturas desprendidas e lunares pedem, humildemente, passagem neste mundo onde a tristeza e a indiferença encontram-se “agendadas” por muitos anos.

Piraí, 19 de agosto de 1991. 06 da manhã.

(Revisada em 19 de agosto de 2015).

sábado, 15 de agosto de 2015

FLERTE



Flerto de tão perto (e a esmo)
A loucura e a insanidade.
Que chego, de mim mesmo, sentir uma inexplicável saudade.

Se há amor, eu invento manhãs.
E, suspenso, do alto afugento os tortos cães do pensamento...
E me vou, e me vôo, e me vou.

Flerto de tão perto a demência,
Que mudo a aparência à minha alma dada.
E choro, e  rio, e oro por horas e horas a fio...
De espada.

Flerto de tão perto o absurdo
Que a tudo relativizo.
E diviso, em meu próprio rosto, a mortalha.
E cego, enxergo mudo. E, surdo, para meu desgosto,
No velho espelho da vida,
Pinto o reflexo (suicida) de um novo canalha.

sábado, 3 de janeiro de 2015

JUNHO EM PIRAÍ

     O povo passa e pisa, com desdém, indiferente, as flores caídas do ipê-amarelo. Pisam o celetista e o estatutário, o optante e o não-optante. A ARENA e o MDB. Todos pisam e nada exclamam em seu andar reticente! Triste, pobre primavera com suas flores gratuitas aos olhares ingratos...
    Ainda bem que chegou esta frente fria! Veio como um sopro de Deus nas geleiras trazido por anjinhos encapuzados!
     Agora sim, vestirei meu casaco e fingirei fumar neblina. Olharei as luzes com sua órbita distinta na névoa e as estrelas de azulinho brilharão com alegria. Terei bons sonhos e o café um gosto amigo.
    No esfregar das mãos, quando vier a boca oferecer um hálito quente, o esboço de um beijo se formará em nossas almas. Beijemos, pois, as mãos.
     As andorinhas empoleirar-se-ão (até a mesóclise aparece nestes tempos!) no fio do pára-raios da Matriz de Sant’Anna, feito um Rosário, um colar de pedras-vivas e, por serem vivas, muito mais preciosas. E ao se tomar un traguito, beber-se-ão também lembranças que nos embotarão os olhos como a manteiga de cacau os lábios.
    A Lua terá seu halo, sua majestade, sua lunar santidade. Agora vejo o cobertor e o chocolate quente, o cigarro com gosto de baunilha e as luvas cheirando a naftalina.
      O frio que sinto não é o frio do mundo... É o quente-frio das palavras de lã e das manhãs despercebidas.

ACCORDÉON

Ando com a sensação de que nunca mais encontrarei a canção que nesta primavera perdi. Cantarolei-a algumas poucas vezes. Bela e simples melodia. E depois... a esqueci! Não como esquecemos os amores marcantes, mas os flertes sem intenção.
            Procurei-a no meu violão, nos quase infinitos e repetitivos dedilhados. Nada. Decidi – que ousadia! – procurá-la no clarinete (eu, um aprendiz!), nas tardes que a noite engolia pelas janelas da Sede da Banda em Arrozal. Lá via a silhueta de uma palmeira entregar-se – relutante e atrevida, como que por dentro querendo e, por fora negando – às nuanças, ora negra, se a nota nos saísse amargurada, ora azul, se o sopro fosse justo e prazeroso.
            É devido dizer, a bem da verdade, que nada sei no clarinete, quase nada. Para mim assemelha-se a um peixe de treze escamas cor de prata e de fala macia. Responde ao nosso beijo recitando notas musicais, como ronronam os gatos às nossas carícias. Dele, apenas subo uma escala, onde o “si” é o patamar entre as verdades que dele aprenderei. Porém, se nada ou quase nada sei de clarinetes, de tardes eu entendo e, naquela, não estava escondida minha canção.
            Mas quem sou eu para lhes entristecer o dia? Acaso algum senhor casmurro que reclama da brisa que espalha as folhas no quintal? Não. Mas nem tudo está perdido: apenas uma canção. Entretanto, como dizia Santo Agostinho: “Nada estará perdido enquanto estivermos em busca.” Faz-se mister insistir, pois, na procura, ainda que como quem não quer achar, inadvertidamente, ao acaso, como às vezes se tropeça na felicidade.
            Subi assim, rotineiramente, aquela despretensiosa rua. Havia trocado duas espingardas com suas cartucheiras num accordéon, disse-me o senhor. Accordéon... accordéon... linda palavra, accordéon! Todos os versos e toda estória deveriam terminar em accordéon: por todo o sempre, accordéon! ... E se amaram e longamente se beijaram... accordéon! E, novamente se encontraram e fizeram as pazes... accordéon!
            Ah, se pudesse lhes dizer:  encontrei,  senhores,encontrei a tal canção perdida! Qual o quê... O verão já se aproxima a salgar-me o rosto e a secar-me a língua e minha canção perdeu-se na primavera. Espero as estações. Pois não se iludam, há sentimentos diversos para cada estação e é inútil procurar no inverno o que no outono se perdeu...

 Daí, então, mansamente, uma flor de melodia se abrirá, em tom menor, e como um fole se abre ao fôlego dos pulmões, nascerá a harmonia. E, então, senhores, escutarão, desde o mais próximo ao mais longínquo ser... por todo sempre, accordéon! 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

PLÁGIO

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O mar é uma mentira, um plágio,                                          
Que me tira do sério e me leva... 
Ao naufrágio.

Um ágil pirata, espadachim a rasgar a vela,
A singrar em mim aquela bela rima...
Que mata.

O mar corsário, único e vário,
Vil e lúdico, pulha e pudico.

O mar mergulha fundo e raso,
No que sonho, no que vazo,
Quando vou ou quando fico.

O mar é uma mentira que há.
Quem tirará o mar de mim?

terça-feira, 21 de outubro de 2014

CORES

Há cores invisíveis. Que se dão aquém da retina.
Que se escondem atrás da cortina,
E não se deixam entrever.

Há cores nuas. Sensuais. Cores menos, cores mais.
Sem pudores, castas, vastas e banais.
Há cores de não se ver.

Há cores tantas, desconhecidas. Sem pretensão, esmaecidas, internas.
Que se apresentam sempre e quando, inerte, tu hibernas.

Há cores que a poesia conhece (e somente ela!). Há cores, ah!, há cores-sons.
A cor do verso e da rima que a palavra esgrima com o poeta,
Que amanhece e anoitece a inflar a vela dos pulmões. Há, sim, há cores-sons!

Há cores tantas e diversas,
Inversas à janela dos olhos, imersas no vento sem fim.
Há cores que existem no silêncio de quem se ouve e se vê por dentro,

Há cores que tento pintar em mim.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

ALMA PORTUGUESA


Há uma alma portuguesa por se revelar,
Uma guitarra no peito e um fadista na garganta.
Um gotejar de notas tristes que não se estanca,
Uma amarra prestes a desatar.

Há uma alma brasileira (também),
Que brada seu sonoro amém ao fim da oração.
Que se orgulha e que borbulha de mistura e miscigenação (tantas),
Um átimo que dura toda a vida, um amor da mais pura medida,
Uma Fátima e uma Aparecida (santas).

Há um não sei quê de tristeza que se quer por companhia,
Há uma noite que se quer dia, um dia que se quer noite,
Um açoite que se quer corpo, um corpo que se quer açoite.

Há uma alma portuguesa por se revelar,
E uma saudade que não sei se é saudade de mim (incerteza!)
Ou se vem do (salgado) mar.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

INSONE


Cães ladram, lobos uivam:
É noite na mente escura.
Nada escapa aos dentes dessa matilha,
Ao escalpo dessa faca,
Ao frio dessa paura.

Cães ladram, lobos uivam:
As ruas são sua ilha de inexata proporção.
O som das patas do relógio, o tempo, à unha, marca:
Ninguém se desvencilha desse necrológio (como se supunha),
E a morte os sonhos em naufrágios abarca.

Cães ladram, lobos uivam:
O medo paga o óbolo ao silêncio.
A cada passo (será que ouço?) que sussurra no lóbulo pênsil a madrugada,
Do fundo do poço urra um vento inerte uma triste gargalhada.

Cães ladram, lobos uivam:
Mas, eis que vejo a luz do dia que amanhece!
Um pavio aceso num rosário, um sol de preces a afugentar os cães!
Ó, vãs noites! Ó, incerto itinerário que oferecem as sangrentas noites vãs!


sábado, 16 de agosto de 2014

OUTRAS HORAS

São outras as horas que percorro,
Como outras são as mortes das quais morro diariamente.
São vários os tempos e as distâncias,
Os vértices e as vertentes,
Vou da velhice à infância,
Do saber a ignorância,
Num breve momento em que sou ausente.

Vou. E não volto,
Como as águas às nascentes o fazem,
O Piraí me leva e em mim planta
O deserto, a sede e a miragem.

Vou. E não volto,
O Piraí me leva entre garças, capivaras e tucunarés.
Vou. E não volto,
Pois já não sou eu mais quem canta:
Quem canta és tu! Mas quem tu és?

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

NAU

Já é tarde: escuto essa voz...
Tarde para o que sonhaste tanto:
Preparaste demais...

Tarde para ir ou voltar,
Já não há mais tempo, já não há mais canto:
Preparaste demais...

Não há vento, nem velas a inflar,
Tintas ou telas, navios ou mar.
Ficaste no indeciso cais, ó Homem, ó Vida: Preparaste demais!

Foi-se a ousadia, o passo que não deste,
O traço que à caneta recusaste,  a voz que à garganta emudeceste!
Escolheste o medo, o lúgubre,
Sucumbiste ao dedo que em riste acusa:
Preparaste, demais e amiúde, ó triste alma difusa!

sábado, 3 de maio de 2014

HORDAS ANCESTRAIS

Vi nos meus lábios
O sorriso do meu pai.
No apinhado dos dentes – ai! –
As emoções cravadas no osso...

Ouvi do fosso da garganta
A voz das cordas vocais das hordas ancestrais a gritar:
“Vai! Levanta e canta! Porque nós – ah! –  já não somos mais!”

Vi, na barba falha,
A cega navalha da vida e da morte.
No torto corte que emoldura o rosto
O tempo a dizer: “Isto posto, lancemo-lo à sorte:
Rasgar ou tecer?”

Vi o que não vejo comumente,
O que à luz do dia não percebo.
Vi, tarde demais e claramente,
O que deveria ter visto cedo e urgentemente.


Saulo Soares

terça-feira, 29 de abril de 2014

ESCREVO

Escrevo porque me esqueço,
Pois a memória cobra um preço exorbitante: quanto mais passam os dias - obra ofegante! - Mais o que era perto se faz distante...

Escrevo porque me canso,
Pois não alcanço o tempo que passou. Escrevo porque vou...

Escrevo porque sou lento,
Porque leve o vento leva, porque chove, porque neva... cá dentro.

Escrevo porque me curvo, porque me turvo, porque não sei.
Escrevo porque hei, porque que um dia fui. Escrevo porque dilui...

Escrevo, pois me espera a morte e me chama à vida. Escrevo porque que é ferida...
Escrevo, pois quer queira ou não queira, um dia, na noite derradeira... não mais escreverei.




Saulo Soares

sábado, 7 de setembro de 2013

BAGAGEM

Trago na bagagem a miragem do que ainda verei.
Uns olhos sedentos de um colírio que, em tempos de delírio, inventei.
Trago o que sei e o que não sei... ainda.
 No bolso - o eu-moço -  e uma mensagem indecifrável (e linda).

Trago, num largo poço do peito, um laço e um nó desfeito,
O verde da Amador  e as andorinhas pousadas no fio.
Trago e os ofereço aos homens de toda a Terra,
Ao que acerta e ao que erra, as águas do meu rio.

Trago, de fato, a certeza de que em cada cidade
Habita um pouco de mim: (hei de encontrar-me inteiro!)
 Trago um não, um sim,
A beleza de um setembro e o calor de um janeiro.

Trago a crença de que o mundo é um só
E de que todos somos irmãos.
Trago o pão que, partido, une,
Que não pune por ser diferente,
Trago pão que se faz gente,
Trago gente que se faz pão.

Trago a mim e meu solitário caminho,
Trago o meu mundo para o mundo todo,
E o mundo todo pro diário do meu ninho.

Em Piraí ou noutro lado do planeta,
Entôo minha opereta, meu canto diverso, profundo, vago e verdadeiro:
O mundo é minha casa e minha casa é o mundo inteiro.




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PARA FERNANDO PESSOA

Odeio as odes quilométricas,
Patéticas em seu centro de dentro e de fora.
Com suas palavras ao encalço da mente,
Soam como o chato que não vai embora!

Odeio, frente e verso, as poesias imensas,
Seriam mais belas as folhas em branco,
Mais densas no solavanco que propõem,
Mais nobres na afronta que avertem!

Odeio o feio e frio fino fio das rimas
Forçadas de cima para baixo,
Poesia de estupro e estupor...

Odeio cavalgar o burro xucro das palavras
E supor Corcel imaginário, que as asas abre, Unicórnio.
Odeio a química poética de clorofórmio e zinabre!

VOLTA REDONDA, 09 DE NOVEMBRO

O uniforme da Companhia
Ainda tem sangue e poeira.
Ainda me doem na alma os cassetetes,
Os fuzis ainda apontam seus frios olhos pra mim.

Ainda te amo no espaço e no tempo,

Com o calor da aciaria , o aço da mão do Capital que espalma.
Com meus pobres olhos de siderurgia...Te amo no eterno noite-dia-noite-dia...

Ainda te amo com Ordem e Progresso,

Com a desordem dos meus versos e a melodia do meu canto...

Quem me dera te amasse ainda vivo...

Meu coração grevista, morto, tanto chora... tanto!

 Mas, pronto! Eis a hora: que mal te fiz?


Tantas balas cabem em meu peito,

Quanto em meu coração os Brasis.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

SOMBRAS DOS PROFETAS

     Sentei-me em frente à Matriz de Santana, encostado numa pilastra do canto. O sol batia em minhas costas e no prédio em frente as sombras das pilastras pareciam-me os Profetas do Aleijadinho.
     O zelador da Igreja abriu as janelas do coro . Num pensamento bobo fico esperando a Igreja cantar. Bobagem mesmo... Ele retirou das janelas duas casas de marimbondos. O relógio da Igreja marca cinco para as cinco. As sombras começam a envelhecer e a diminuir de tamanho, aproximando-se uma das outras para se unirem numa única profecia.
     Escrevo à medida que o sol enfraquece, à medida exata dos sentimentos das coisas. Agora passa um cachorro apressado como se atrasado para um encontro ou como se fosse o Coelho de Alice. Por que os cachorros andam apressados?
     De onde estou posso ver a Mata do Amador modificando-se no claro-escuro do sol. Passa um carro justamente quando o relógio bate cinco horas. Atrapalhou-me a ouvir o tempo dizer: Cinco a zero  para mim, Saulo!
     Agora quem passa é o Sr. Bento. Canta aquele vento frio... As andorinhas pousarão no fio do pára-raios e depois sumirão para o mistério dos seus ninhos. Quando de fato anoitecer, as mariposas terão um encontro marcado em torno da luz.
     Uma criança passa cantando uma canção que não sei. Agora já está na Praça, mas a melodia ficou cá em cima para eu aprender.
     Quanto não acontece num breve espaço de tempo! As sombras já não mais existem. Perdi outra profecia... Algumas luzes a mais acesas no Asilo e as andorinhas darão lugar às mariposas. Mas eu? A quem darei meus olhos interioranos, meus sentimentos caipiras? Quem velará pelas sombras e saberá do turno das andorinhas e mariposas? Eu que nada sei, volto para casa como o céu rosado sobre a cabeça... Piraí. Como bem diz o seu Hino: "... Pequeno gigante!".

sábado, 28 de julho de 2012

LUAR DE PIRAÍ

Aqui a lua nasce de trás da Cruz, padecer de Cristo.
E, de tantas luas que tenho visto,
Só esta nasce para morrer Jesus!

Nasce no Cruzeiro,
Junto aos discos-voadores
E na rota dos aviões...

Nasce no extremo da minha vista,
Finca no solo a bandeira
- como fez o astronauta na conquista -
Como fazem as mulheres nos corações!

Aqui a lua nasce de trás da Cruz, padecer de Cristo.
E, de tantas luas que tenho visto,
Só esta nasce para ver Jesus!

Foto: Alexandre Teixeira, Piraí (RJ).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

D. HIA


Sempre sorrindo, curvada como nas saudações nipônicas, D. Hia esbanja disposição. Recebe pensão lá no Banco. Por vezes a vi disputar (e vencer!) o que chamava de Grand Prix Aposentados e Pensionistas, circuito que vai da porta de entrada aos guichês de caixa. Diga-se de passagem: sem parar nos boxes!
            Quando implantaram a fila única, enquanto os demais concorrentes faziam a volta de apresentação, seguindo os limites das linhas, D. Hia cortava caminho. Antes mesmo de cruzar a linha de chegada já fazia gestos do que desejava: se o espelho do pagamento, numa mímica mesclada com coreografia, colocava a mão em frente ao rosto; se conta de luz, apontava para as lâmpadas; e assim vai D. Hia. Vai ou foi? Foi ou ia? Sei não...
            Maldosos, alguns, dizem que D. Hia deveria chamar-se D. Foi. A meu ver: D. Hia-fingiu-que-foi-mas-não-foi. Explico: sempre ao receber seu pagamento cumpre um ritual de trocados e trocadilhos com as notas. Pergunta se tantas dessas equivalem a tantas daquelas e... finge que vai. Volta e pede para trocar a de mil por duas de quinhentos e... finge que vai. A de quinhentos por cinco de cem e... finge que vai. Permita-me o leitor simplificar o nome de D. Hia para D. Hia Ioiô.
            Há poucos dias, ao fim do expediente, fui à Rodoviária para comprar umas revistas. Lá estavam, ela e sua filha, sentadas em frente ao embarque. Quem pensou que D. Hia ia, enganou-se. Era dia chuvoso e ofereceu-me sua sombrinha. Respondi (feito ela) imitando com gestos um volante nas mãos. Entendeu, sorriu e ficou a esperar o ônibus em que não viajaria. Lembrei-me não ser a primeira vez que a vejo neste mesmo horário no embarque.
            D. Hia foi a Banco com curativos nos braços e, no rosto, arranhões e mercúrio cromo. Falou-me, rouca, que havia caído na rua próxima a da padaria.  Disse-lhe algumas palavras de consolo e animação, despediu-se e, desta vez... foi. Não queria espelho, saldo, pagamento. Desejava apenas compartilhar um pouco de sua vida. Dias passaram e ela voltou, triunfal e sorridente. É... D. Hia Iaiá!
            Confesso que gosto de D. Hia e, por mais que vá prefiro sempre que volte.
P.S.: Finalmente D. Hia embarcou naquele ônibus. Destino: Eternidade.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

PONTA DOS PÉS

Senti saudades tuas
Como os pés sentem
Das ruas por andar.

E caminhei na lembrança e no passado,
E cada passo dado nesta andança
Era um passo - meu Deus! - a mais por dar.

Senti saudades tuas
Mas agora eu sei:
Senti como sentem as ruas
Dos caminhos que andei!

O SR. FARID E O CÉU


Perdemos o Sr. Farid... Que pena! Entretanto, o perdemos para Deus: então ganhamos.  Sentirei falta de seu inconfundível bom humor. Ah... O Sr. Farid era o tipo de pessoa que caminhava com um gratuito sorriso no rosto. Pronto a distribuí-lo generosa e largamente aos transeuntes e amigos. Era meu leitor. Confessou-me certa vez. Muito me orgulhou!
 Trazia consigo sempre uma anedota. Judeu, árabe, papagaio, português. Não importava; o que realmente valia era transmitir a alegria. O repertório era farto e, nós nos esbaldávamos. Quando ria quase não emitia som: as bochechas avolumadas pela graça, os olhos lacrimejantes pelo riso... Ríamos com o riso dele! É. É isso.
            Como nos fará falta! Quando soube de sua Passagem para o Senhor, fiquei imaginando ele chegando ao Céu. O Céu, amigos, não é “lugar” de mau humor e azedumes, não!  Perfeito para o Sr. Farid!
            São Pedro o avista, aperta e esfrega os olhos e diz esbaforido: “Senhor, Senhor, eu acho que é o Farid! Que faço?” E já se nota no canto da boca do Salvador da Humanidade nascer um sorriso divino. Mão no queixo, cabeça balançando suavemente em concordância e satisfação, se volta para o Guardião das Chaves e diz apressadamente: ”Como: o que faço?! Abre logo, Pedro, as portas, que eu e abro os braços! Meu querido amigo vem participar da nossa Alegria!
            Sr. Farid vem chegando, cada vez mais perto, e Pedro o recepciona. Pigarreia primeiro – hum, hum – manda dois anjos tocarem em terça um tã-nã-nã-tã-nã nas trombetas e, com ares solenes e celestiais diz quase solfejando em barítono: “Seja bem vindo, Farid; o Senhor te espera!” Ao que nosso saudoso e querido amigo retruca: “Pedrão, conhece aquela da Festa no Ceú...”
            Ah... Depois de sua Páscoa definitiva, encontrei-me com algumas pessoas: Carlinhos do Seu Zezé, Mackenzie, e outros tantos mais: todos se lamentando...
            Esta é a minha homenagem. Não poderia ser de outra forma. Não poderia trazer a tristeza dos obituários. Não, por certo, não... Precisava, sim, renovar a alegria que ele nos presenteava cotidianamente.      
      À sua família:  meus sentimentos e, principalmente, a certeza e a esperança dos que creem em Cristo: a fé na Ressurreição. Um dia todos  estaremos juntos! Sorrindo, alegres de uma Alegria que nada, nem mesmo mais a morte, poderá nos roubar!
Grande abraço,
Saulo Soares.  

segunda-feira, 25 de junho de 2012

MOINHOS

Vem você no vento
Bater as asas do moinho.
Mói meu coração de brisa que
Sozinho vai ao chão.

Vem você nas águas
Mover as pedras do moinho.
Leva em quedas meu coração sem tempo,
Sem unguento, sem emplastro, sem vastidão.

Vem você escrava
Mover as engrenagens do moinho.
Como refazer-me o caminho das veias,
Se o amor em pó misturou-se ao trigo?
Como, nas ceias, em tua boca encontrar o abrigo?


LÍDICE-ANGRA

A boca do túnel tem sede de mar e curva.
Um turvo azul-claro-verde
Que sangra da Serra a poesia.

Eu dei nome aos morros,
Nomes que você não fantasia.
Lá preguei meus olhos na paisagem,
E me embriaguei do colírio que havia... miragem.

A Serra. A serra  nem mesmo Serra seria
Se não fossem as letras estreitas,
Sujeitas à poesia e à solidão.

A Serra é o túmulo onde um dia,
Sepultarei o acúmulo da minha alma em versos na vastidão.




PERTO


Longe, no que me tange, existe.
É onde mora a felicidade com triste hábito de monge.
Onde tem mangue, mar, rio, serra, campo e deserto.
Longe, no que me tange, é perto.

Longe, no que me tange é ali na esquina.
Na curva do pé de tangerina,
Tangente do coração de Carolina.

Longe, no que me tange, é tenaz.
Não é distância quilométrica, nem futuro incapaz.

Longe inatingível é o que passou,
O tempo que não volta atrás.
É o tormento, o que está antes do muro do nascimento.
É o mugido do boi dos ancestrais.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

VASOS CHEIOS, VASOS VAZIOS




     Há uma bela canção do grupo Vencedores por Cristo que diz: “Enche-me, Espírito, mais que cheio quero estar. Eu, o menor dos teus vasos, posso muito transbordar.” A imagem da pequenez que transborda me é simpática. Quantos de nós consideramos que apenas alguns “grandes vasos” contribuem, fazem a diferença. Não. O menor, o vaso menor, por não reter tanto para si é capaz de muito transbordar.
     Sobre vasos, ainda, na internet a bela estória: um camponês tinha dois vasos que utilizava, cotidianamente, para buscar água para sua família. Um em cada ponta da vara trazida aos ombros. Um velho, outro novo. O vaso novo dirigiu-se ao velho dizendo: “Você é velho, rachado. Não consegue reter a água que recolhe. Quando chegamos em casa, ainda estou cheio. Retive a água. Já você... chega quase vazio!” O vaso velho, então, respondeu: “Mas você não reparou que o meu lado do caminho é muito mais florido!” Que maravilha! Enquanto a água vazava através das rachaduras feitas pelo tempo, regava o caminho e gerava beleza e vida!
     Há uma cultura que valoriza apenas aquele que produz. Que tem boa performance. Se não é produtivo, não tem valor. Descarta-se. Pena... Devemos, mais do que quantificar a produtividade, qualificar a produtividade. Não somos o que produzimos, somos o que somos em nossa dignidade: irmãos uns dos outros, pois filhos de Deus!
   Esta cultura (de morte) pretende incutir na sociedade um modelo de pensamento que, exemplificando, não dá valor aos idosos, aos enfermos que, para ela são “improdutivos”. Que considera – com pretextos e argumentos ímpios – descartáveis os bebês ainda não nascidos. Ora, deixemos seguir o seu curso e veremos que daquele ventre não nascerá um abacate e, sim, um ser humano, tão humano quanto nós, porém, extremamente mais frágil e indefeso.  São estágios de uma mesma vida e personalidade.
      Mais uma estória: um monge dirige-se ao Mestre e reclama: “Mestre, por mais que eu leia a Palavra, não consigo retê-la... leio e me esqueço... leio e me esqueço.” O Mestre pede que ele encha e esvazie o mesmo vaso diversas vezes. Diante do vaso vazio lhe diz: “Este vaso não reteve a água que você colocou nele... porém ele está cada vez mais limpo!
     Já citei, em outras oportunidades, este verso do poeta cubano Sylvio Rodrigues, mas vale repetir: “Meu amor não aceita fronteiras, como a primavera não escolhe jardim.”     
     Seguir, como aquele vaso que sofreu rachaduras, desilusões, tristezas, decepções, e que, no entanto, sai a florir o seu caminho. Agir como o pequeno que transborda o amor que recebe. Encher-se de amor e esvaziar-se em doação e cada vez ficar mais limpo. Mirar-se na cruz Daquele que nos redimiu em seu amor que salva e ressuscitou para nos dar a Verdadeira Vida. Que Deus nos ajude a perseverar!

                                                                               Grande abraço! 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TUDO O QUE SE FAZ OU NÃO ( O AMOR A DEUS)

“Eu amo, mesmo, exatamente, pois amar é tudo o que se faz ou não”. Esta é uma frase de uma das belas músicas de Paulinho Pedra Azul, talentoso compositor mineiro. De fato: ou se ama ou não. O amor é um divisor de águas. Sem Ele nada podemos. Digo isso, pois o amor é o que dá valor aos atos. São Paulo nos recorda esta verdade quando no famoso texto bíblico nos ensina que ainda que falássemos a língua dos homens e dos anjos, que tivéssemos toda ciência, fé; mesmo se distribuíssemos todos os nossos bens aos pobres ou entregássemos nosso corpo para ser queimado... se não tivéssemos amor em cada uma dessas ações, de nada valeria.

Salvo engano, é de Madre Tereza de Calcutá a afirmação: “Deus não nos perguntará pelo tanto que nós fizemos; mas por quanto amor colocamos em nossos atos.” Mas, por que falo dessas coisas? Porque Deus é Amor e nós somos feitos à Sua imagem e semelhança! Se a nossa natureza é imagem e semelhança de Deus que é Amor, somos também, em princípio, Amor- respeitadas as limitações da criatura diante do seu Criador - e, apenas no Amor encontramos a razão, a realização e sentido de nossas vidas. Tudo o que se faz com Amor – ainda que não reconhecido pelo outro – não passa sem ser percebido por Deus e ganha ares de eternidade, pois Deus é eterno.

O Mandamento Maior nos fala do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Ensina-nos ainda que, ama a Deus aquele que faz Sua Vontade. E a Sua vontade é que todos cheguem ao Seu conhecimento, à vida eterna. Ora, o ser humano é dotado de inteligência e vontade. Li dia desses um significado atribuído à palavra inteligência: intus legeriintus como interior; legeri como leitura. Ou seja: inteligente é aquele que empreende uma viagem para dentro de si; aquele que se conhece, que “se lê”, que tem o autoconhecimento. Mergulhe em si mesmo, sobretudo, mergulhe em Deus. Aliás, o batismo é um “mergulho” na Vida Divina.

Vontade é decisão. Para os judeus o órgão do corpo humano referente aos sentimentos não é o coração, e sim o estômago, as vísceras. O coração é o órgão da decisão. Portanto, quando se lê na Bíblia: “Amar a Deus de todo o coração”, entenda-se: decididamente.

Quando Deus – que nos fez - dá-nos o mandamento, a ordem de amar, assim o faz não com o intuito autoritário, “mandão”, e sim de “ordenar” nosso viver para sermos felizes. Amar a Deus e usar as coisas e, não usar a Deus e amar as coisas! Dizem que a gramática do verdadeiro cristão é invertida: ELE, Tu, eu; e não EU, Tu, ele...

Grande abraço!!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O NÓ NA GRAVATA DE UM CERTO JOÃO BATISTA


Não sei bem por onde começar... Vez em quando as ideias me vêm como num quebra-cabeça... Diga-se de passagem: nunca fui bom com quebra-cabeças e, confesso, também, em dar nós em gravatas. Aliás, poderia fazer uma lista de coisas singelas em que não sou bom. Nem ao menos mediano! Mas não é isso que importa.
Por causa da minha profissão uso gravata. E já notei a diferença quando sou atendido e estou usando gravata, ou não. Uma pena... Uma gravata não diz muito sobre o que somos. Gilberto Gil afirma que: “Se eu quiser falar com Deus... Tenho que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios...”. Folgar os nós... dos sapatos. Logo a imagem me remeteu a João Batista dizendo que, de Jesus, ele não era digno de desatar as sandálias. Pensei, também, em Moisés escutando do Senhor: "Tira as sandálias dos teus pés, pois o solo que tu pisas é santo."
Tudo isso quis dizer para lhes contar o que me aconteceu: estava numa loja, num Shopping em Volta Redonda, sendo tratado como “senhor pra cá, senhor pra lá” (obviamente estava de gravata). De repente se volta para mim uma mulher, negra, uns 30 anos, com as pernas atrofiadas, de muletas e me pede: “Dá um laço no cadarço do meu tênis?”  Olhei nos olhos dela; eles sorriram. Ela não entenderia nada se lhe dissesse que eu “não era digno da dar um laço no seu tênis”. Ou se falasse de João Batista, Moisés, Gilberto Gil. Mas me senti assim: indigno – eu, com toda a minha mobilidade e acessibilidade, num mundo feito para alguns, não para todos; indo e vindo como me garante a Constituição – não era digno, de fato, de dar aquele laço. Mas dei. Lembrei-me do meu filho quando pequeno, no tempo em que o ajudava a dar laços para ir ao Jardim; recordei-me, também, do menino pobrezinho no Central, em Barra do Piraí, à margem do campo e das oportunidades, com a chuteira boquiaberta, chorando por não saber dar laços em cadarços esfiapados. Como temos, meu Senhor e meu Deus, cadarços em fiapos com os quais não conseguimos fazer laços em nossas vidas!
Preciso discordar de Gil: se eu quiser, de fato, falar com Deus, devo dar ainda muitos laços, mas não em "meus sapatos e gravatas"...
Deus é incomparavelmente bom e amoroso! Fala-nos muito mais ao coração do que aos ouvidos! Louvado seja Deus para sempre! Ah: e Ele sabe tudo de quebra-cabeças e de nós em gravatas...

Grande abraço,
Saulo Soares.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PIRAHY, 03 DE SETEMBRO




Não se passa pela Serra das Araras
Sem o conhecimento de um tié-sangue,
Sem que um canto inunde o mangue e a Guanabara.

Nem por Arrozal, sem que no vento voe
Notas claras, belas e luzidias,
Ou pelos verdes olhos da Mata do Amador
Sem que a chuva denuncie, por lá, a cor dos dias!

Não se passa – cremos! – pelo Piraí,
Sem que um tucunaré seja um tucunaré a menos,
Sem que as curvas do seu leito
Tornem largo o estreito, perto o distante,
Novo o que foi desfeito.

Não se passa se a poesia
A atmosfera invade assim, de assalto,
E as doze palmeiras se enverguem do seu alto,
Saudando, respeitosamente, a primavera.
Não se passa sem que a tarde o dia vele,
Sem que, na linha da Capela de São Benedito,
O sol descanse e, aflito,
Um ipê-amarelo... amarele.

Foto: Capelinha de São Benedito, em Piraí (RJ). Fotógrafo: Alexandre Teixeira, Piraí (RJ).

sábado, 17 de setembro de 2011

O HOMEM QUE NÃO DAVA BOM DIA

Lúcio de Mendonça. Fazíamos fila para entrar. Cantávamos hinos. Bandeira hasteada. Desse tempo muitas saudades e, hoje em especial, uma lembrança musical: “Bom dia nada custa ao nosso coração, que bom fazer feliz o nosso irmão! Por Deus se deve amar, amar sem distinção! Alô, bom dia, irmão!” Corrijam-me os contemporâneos a letra da canção. Pois bem. Li uma pequena estória com o seguinte título: “Você age ou reage?” Fala de alguém que sempre agradecia ao jornaleiro e este, impassível, não respondia. Questionado por que continuava a ser educado, respondeu: “Por que não? Por que eu iria deixar que fosse ele quem decidisse como eu devo agir?”.

Eis a chave: agir ou reagir? A maioria de nós reage. E, também na maioria das vezes, desproporcionalmente à ação.

Mas porque tudo isso? Bem, assim como o personagem da estória, havia alguém a quem eu sempre sorria, cumprimentava, dava bom dia e... nada.

Aquilo me incomodava sobremaneira: o que devo ter feito para que aquela pessoa fosse assim comigo? Eu sou muito distraído. Santo Deus! E, de sobra, não enxergo muito bem. Em algum momento, com certeza, de alguma forma eu a ofendi.

Coincidentemente, encontrei-me com ela num elevador e – num “descuido de sua parte” - entendi por que ela não me sorria: seus dentes, ou o que restaram deles. O meu comportamento exigia dela um sorriso que, creio, ela até gostaria de dar, mas que lhe causava constrangimento, suponho.

Como somos inaptos para julgamento! Objetivamente, sob a ótica da Lei, é preciso o julgamento – ainda que este também seja passível de erros. Afinal, faz parte da Justiça absolver, condenar. Entretanto, falo desses “julgamentos subjetivos”, pessoais, que exercemos diariamente sobre os outros e quase nunca sobre nós mesmos. É o que nos fala Jesus: “... com a mesma medida que julgardes sereis julgados... não julgueis para não serdes julgados...”. E nos exorta, aponta-nos um caminho: “... Sede misericordiosos...”.

O homem que não dava bom dia não era avaro de gentilezas, não, creio. Talvez até as tivesse de sobra, abundantemente e as desejasse compartilhar com muitos. Porém...

Atendi esses dias uma senhora que, igualmente, “não dava bom dia”. Lembrei-me das “cáries” de nossa alma. Ela ia falando e eu tentando imaginá-la como uma criança triste que a vida, por um desses motivos mais tristes ainda, roubou-lhe a capacidade de “dar bom dia”, de cantar aquela canção. Imaginei-a na fila do Lúcio de Mendonça, de blusa branca, saia azul marinho, bolso com o brasão do Estado do Rio de Janeiro, balançando as tranças ao ritmo da bandeira acariciada pelo vento, cantarolando. De repente, olha para mim, sorri e diz: bom dia. Diz aquela música na simplicidade dos seus versos: “e a gente, sem saber como e porquê, se sente feliz e sai a cantar uma alegre canção!”.

Grande abraço.