sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PARA FERNANDO PESSOA

Odeio as odes quilométricas,
Patéticas em seu centro de dentro e de fora.
Com suas palavras ao encalço da mente,
Soam como o chato que não vai embora!

Odeio, frente e verso, as poesias imensas,
Seriam mais belas as folhas em branco,
Mais densas no solavanco que propõem,
Mais nobres na afronta que avertem!

Odeio o feio e frio fino fio das rimas
Forçadas de cima para baixo,
Poesia de estupro e estupor...

Odeio cavalgar o burro xucro das palavras
E supor Corcel imaginário, que as asas abre, Unicórnio.
Odeio a química poética de clorofórmio e zinabre!

VOLTA REDONDA, 09 DE NOVEMBRO

O uniforme da Companhia
Ainda tem sangue e poeira.
Ainda me doem na alma os cassetetes,
Os fuzis ainda apontam seus frios olhos pra mim.

Ainda te amo no espaço e no tempo,

Com o calor da aciaria , o aço da mão do Capital que espalma.
Com meus pobres olhos de siderurgia...Te amo no eterno noite-dia-noite-dia...

Ainda te amo com Ordem e Progresso,

Com a desordem dos meus versos e a melodia do meu canto...

Quem me dera te amasse ainda vivo...

Meu coração grevista, morto, tanto chora... tanto!

 Mas, pronto! Eis a hora: que mal te fiz?


Tantas balas cabem em meu peito,

Quanto em meu coração os Brasis.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

SOMBRAS DOS PROFETAS

     Sentei-me em frente à Matriz de Santana, encostado numa pilastra do canto. O sol batia em minhas costas e no prédio em frente as sombras das pilastras pareciam-me os Profetas do Aleijadinho.
     O zelador da Igreja abriu as janelas do coro . Num pensamento bobo fico esperando a Igreja cantar. Bobagem mesmo... Ele retirou das janelas duas casas de marimbondos. O relógio da Igreja marca cinco para as cinco. As sombras começam a envelhecer e a diminuir de tamanho, aproximando-se uma das outras para se unirem numa única profecia.
     Escrevo à medida que o sol enfraquece, à medida exata dos sentimentos das coisas. Agora passa um cachorro apressado como se atrasado para um encontro ou como se fosse o Coelho de Alice. Por que os cachorros andam apressados?
     De onde estou posso ver a Mata do Amador modificando-se no claro-escuro do sol. Passa um carro justamente quando o relógio bate cinco horas. Atrapalhou-me a ouvir o tempo dizer: Cinco a zero  para mim, Saulo!
     Agora quem passa é o Sr. Bento. Canta aquele vento frio... As andorinhas pousarão no fio do pára-raios e depois sumirão para o mistério dos seus ninhos. Quando de fato anoitecer, as mariposas terão um encontro marcado em torno da luz.
     Uma criança passa cantando uma canção que não sei. Agora já está na Praça, mas a melodia ficou cá em cima para eu aprender.
     Quanto não acontece num breve espaço de tempo! As sombras já não mais existem. Perdi outra profecia... Algumas luzes a mais acesas no Asilo e as andorinhas darão lugar às mariposas. Mas eu? A quem darei meus olhos interioranos, meus sentimentos caipiras? Quem velará pelas sombras e saberá do turno das andorinhas e mariposas? Eu que nada sei, volto para casa como o céu rosado sobre a cabeça... Piraí. Como bem diz o seu Hino: "... Pequeno gigante!".

sábado, 28 de julho de 2012

LUAR DE PIRAÍ

Aqui a lua nasce de trás da Cruz, padecer de Cristo.
E, de tantas luas que tenho visto,
Só esta nasce para morrer Jesus!

Nasce no Cruzeiro,
Junto aos discos-voadores
E na rota dos aviões...

Nasce no extremo da minha vista,
Finca no solo a bandeira
- como fez o astronauta na conquista -
Como fazem as mulheres nos corações!

Aqui a lua nasce de trás da Cruz, padecer de Cristo.
E, de tantas luas que tenho visto,
Só esta nasce para ver Jesus!

Foto: Alexandre Teixeira, Piraí (RJ).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

D. HIA


Sempre sorrindo, curvada como nas saudações nipônicas, D. Hia esbanja disposição. Recebe pensão lá no Banco. Por vezes a vi disputar (e vencer!) o que chamava de Grand Prix Aposentados e Pensionistas, circuito que vai da porta de entrada aos guichês de caixa. Diga-se de passagem: sem parar nos boxes!
            Quando implantaram a fila única, enquanto os demais concorrentes faziam a volta de apresentação, seguindo os limites das linhas, D. Hia cortava caminho. Antes mesmo de cruzar a linha de chegada já fazia gestos do que desejava: se o espelho do pagamento, numa mímica mesclada com coreografia, colocava a mão em frente ao rosto; se conta de luz, apontava para as lâmpadas; e assim vai D. Hia. Vai ou foi? Foi ou ia? Sei não...
            Maldosos, alguns, dizem que D. Hia deveria chamar-se D. Foi. A meu ver: D. Hia-fingiu-que-foi-mas-não-foi. Explico: sempre ao receber seu pagamento cumpre um ritual de trocados e trocadilhos com as notas. Pergunta se tantas dessas equivalem a tantas daquelas e... finge que vai. Volta e pede para trocar a de mil por duas de quinhentos e... finge que vai. A de quinhentos por cinco de cem e... finge que vai. Permita-me o leitor simplificar o nome de D. Hia para D. Hia Ioiô.
            Há poucos dias, ao fim do expediente, fui à Rodoviária para comprar umas revistas. Lá estavam, ela e sua filha, sentadas em frente ao embarque. Quem pensou que D. Hia ia, enganou-se. Era dia chuvoso e ofereceu-me sua sombrinha. Respondi (feito ela) imitando com gestos um volante nas mãos. Entendeu, sorriu e ficou a esperar o ônibus em que não viajaria. Lembrei-me não ser a primeira vez que a vejo neste mesmo horário no embarque.
            D. Hia foi a Banco com curativos nos braços e, no rosto, arranhões e mercúrio cromo. Falou-me, rouca, que havia caído na rua próxima a da padaria.  Disse-lhe algumas palavras de consolo e animação, despediu-se e, desta vez... foi. Não queria espelho, saldo, pagamento. Desejava apenas compartilhar um pouco de sua vida. Dias passaram e ela voltou, triunfal e sorridente. É... D. Hia Iaiá!
            Confesso que gosto de D. Hia e, por mais que vá prefiro sempre que volte.
P.S.: Finalmente D. Hia embarcou naquele ônibus. Destino: Eternidade.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

PONTA DOS PÉS

Senti saudades tuas
Como os pés sentem
Das ruas por andar.

E caminhei na lembrança e no passado,
E cada passo dado nesta andança
Era um passo - meu Deus! - a mais por dar.

Senti saudades tuas
Mas agora eu sei:
Senti como sentem as ruas
Dos caminhos que andei!

O SR. FARID E O CÉU


Perdemos o Sr. Farid... Que pena! Entretanto, o perdemos para Deus: então ganhamos.  Sentirei falta de seu inconfundível bom humor. Ah... O Sr. Farid era o tipo de pessoa que caminhava com um gratuito sorriso no rosto. Pronto a distribuí-lo generosa e largamente aos transeuntes e amigos. Era meu leitor. Confessou-me certa vez. Muito me orgulhou!
 Trazia consigo sempre uma anedota. Judeu, árabe, papagaio, português. Não importava; o que realmente valia era transmitir a alegria. O repertório era farto e, nós nos esbaldávamos. Quando ria quase não emitia som: as bochechas avolumadas pela graça, os olhos lacrimejantes pelo riso... Ríamos com o riso dele! É. É isso.
            Como nos fará falta! Quando soube de sua Passagem para o Senhor, fiquei imaginando ele chegando ao Céu. O Céu, amigos, não é “lugar” de mau humor e azedumes, não!  Perfeito para o Sr. Farid!
            São Pedro o avista, aperta e esfrega os olhos e diz esbaforido: “Senhor, Senhor, eu acho que é o Farid! Que faço?” E já se nota no canto da boca do Salvador da Humanidade nascer um sorriso divino. Mão no queixo, cabeça balançando suavemente em concordância e satisfação, se volta para o Guardião das Chaves e diz apressadamente: ”Como: o que faço?! Abre logo, Pedro, as portas, que eu e abro os braços! Meu querido amigo vem participar da nossa Alegria!
            Sr. Farid vem chegando, cada vez mais perto, e Pedro o recepciona. Pigarreia primeiro – hum, hum – manda dois anjos tocarem em terça um tã-nã-nã-tã-nã nas trombetas e, com ares solenes e celestiais diz quase solfejando em barítono: “Seja bem vindo, Farid; o Senhor te espera!” Ao que nosso saudoso e querido amigo retruca: “Pedrão, conhece aquela da Festa no Ceú...”
            Ah... Depois de sua Páscoa definitiva, encontrei-me com algumas pessoas: Carlinhos do Seu Zezé, Mackenzie, e outros tantos mais: todos se lamentando...
            Esta é a minha homenagem. Não poderia ser de outra forma. Não poderia trazer a tristeza dos obituários. Não, por certo, não... Precisava, sim, renovar a alegria que ele nos presenteava cotidianamente.      
      À sua família:  meus sentimentos e, principalmente, a certeza e a esperança dos que creem em Cristo: a fé na Ressurreição. Um dia todos  estaremos juntos! Sorrindo, alegres de uma Alegria que nada, nem mesmo mais a morte, poderá nos roubar!
Grande abraço,
Saulo Soares.  

segunda-feira, 25 de junho de 2012

MOINHOS

Vem você no vento
Bater as asas do moinho.
Mói meu coração de brisa que
Sozinho vai ao chão.

Vem você nas águas
Mover as pedras do moinho.
Leva em quedas meu coração sem tempo,
Sem unguento, sem emplastro, sem vastidão.

Vem você escrava
Mover as engrenagens do moinho.
Como refazer-me o caminho das veias,
Se o amor em pó misturou-se ao trigo?
Como, nas ceias, em tua boca encontrar o abrigo?


LÍDICE-ANGRA

A boca do túnel tem sede de mar e curva.
Um turvo azul-claro-verde
Que sangra da Serra a poesia.

Eu dei nome aos morros,
Nomes que você não fantasia.
Lá preguei meus olhos na paisagem,
E me embriaguei do colírio que havia... miragem.

A Serra. A serra  nem mesmo Serra seria
Se não fossem as letras estreitas,
Sujeitas à poesia e à solidão.

A Serra é o túmulo onde um dia,
Sepultarei o acúmulo da minha alma em versos na vastidão.




PERTO


Longe, no que me tange, existe.
É onde mora a felicidade com triste hábito de monge.
Onde tem mangue, mar, rio, serra, campo e deserto.
Longe, no que me tange, é perto.

Longe, no que me tange é ali na esquina.
Na curva do pé de tangerina,
Tangente do coração de Carolina.

Longe, no que me tange, é tenaz.
Não é distância quilométrica, nem futuro incapaz.

Longe inatingível é o que passou,
O tempo que não volta atrás.
É o tormento, o que está antes do muro do nascimento.
É o mugido do boi dos ancestrais.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

VASOS CHEIOS, VASOS VAZIOS




     Há uma bela canção do grupo Vencedores por Cristo que diz: “Enche-me, Espírito, mais que cheio quero estar. Eu, o menor dos teus vasos, posso muito transbordar.” A imagem da pequenez que transborda me é simpática. Quantos de nós consideramos que apenas alguns “grandes vasos” contribuem, fazem a diferença. Não. O menor, o vaso menor, por não reter tanto para si é capaz de muito transbordar.
     Sobre vasos, ainda, na internet a bela estória: um camponês tinha dois vasos que utilizava, cotidianamente, para buscar água para sua família. Um em cada ponta da vara trazida aos ombros. Um velho, outro novo. O vaso novo dirigiu-se ao velho dizendo: “Você é velho, rachado. Não consegue reter a água que recolhe. Quando chegamos em casa, ainda estou cheio. Retive a água. Já você... chega quase vazio!” O vaso velho, então, respondeu: “Mas você não reparou que o meu lado do caminho é muito mais florido!” Que maravilha! Enquanto a água vazava através das rachaduras feitas pelo tempo, regava o caminho e gerava beleza e vida!
     Há uma cultura que valoriza apenas aquele que produz. Que tem boa performance. Se não é produtivo, não tem valor. Descarta-se. Pena... Devemos, mais do que quantificar a produtividade, qualificar a produtividade. Não somos o que produzimos, somos o que somos em nossa dignidade: irmãos uns dos outros, pois filhos de Deus!
   Esta cultura (de morte) pretende incutir na sociedade um modelo de pensamento que, exemplificando, não dá valor aos idosos, aos enfermos que, para ela são “improdutivos”. Que considera – com pretextos e argumentos ímpios – descartáveis os bebês ainda não nascidos. Ora, deixemos seguir o seu curso e veremos que daquele ventre não nascerá um abacate e, sim, um ser humano, tão humano quanto nós, porém, extremamente mais frágil e indefeso.  São estágios de uma mesma vida e personalidade.
      Mais uma estória: um monge dirige-se ao Mestre e reclama: “Mestre, por mais que eu leia a Palavra, não consigo retê-la... leio e me esqueço... leio e me esqueço.” O Mestre pede que ele encha e esvazie o mesmo vaso diversas vezes. Diante do vaso vazio lhe diz: “Este vaso não reteve a água que você colocou nele... porém ele está cada vez mais limpo!
     Já citei, em outras oportunidades, este verso do poeta cubano Sylvio Rodrigues, mas vale repetir: “Meu amor não aceita fronteiras, como a primavera não escolhe jardim.”     
     Seguir, como aquele vaso que sofreu rachaduras, desilusões, tristezas, decepções, e que, no entanto, sai a florir o seu caminho. Agir como o pequeno que transborda o amor que recebe. Encher-se de amor e esvaziar-se em doação e cada vez ficar mais limpo. Mirar-se na cruz Daquele que nos redimiu em seu amor que salva e ressuscitou para nos dar a Verdadeira Vida. Que Deus nos ajude a perseverar!

                                                                               Grande abraço! 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TUDO O QUE SE FAZ OU NÃO ( O AMOR A DEUS)

“Eu amo, mesmo, exatamente, pois amar é tudo o que se faz ou não”. Esta é uma frase de uma das belas músicas de Paulinho Pedra Azul, talentoso compositor mineiro. De fato: ou se ama ou não. O amor é um divisor de águas. Sem Ele nada podemos. Digo isso, pois o amor é o que dá valor aos atos. São Paulo nos recorda esta verdade quando no famoso texto bíblico nos ensina que ainda que falássemos a língua dos homens e dos anjos, que tivéssemos toda ciência, fé; mesmo se distribuíssemos todos os nossos bens aos pobres ou entregássemos nosso corpo para ser queimado... se não tivéssemos amor em cada uma dessas ações, de nada valeria.

Salvo engano, é de Madre Tereza de Calcutá a afirmação: “Deus não nos perguntará pelo tanto que nós fizemos; mas por quanto amor colocamos em nossos atos.” Mas, por que falo dessas coisas? Porque Deus é Amor e nós somos feitos à Sua imagem e semelhança! Se a nossa natureza é imagem e semelhança de Deus que é Amor, somos também, em princípio, Amor- respeitadas as limitações da criatura diante do seu Criador - e, apenas no Amor encontramos a razão, a realização e sentido de nossas vidas. Tudo o que se faz com Amor – ainda que não reconhecido pelo outro – não passa sem ser percebido por Deus e ganha ares de eternidade, pois Deus é eterno.

O Mandamento Maior nos fala do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Ensina-nos ainda que, ama a Deus aquele que faz Sua Vontade. E a Sua vontade é que todos cheguem ao Seu conhecimento, à vida eterna. Ora, o ser humano é dotado de inteligência e vontade. Li dia desses um significado atribuído à palavra inteligência: intus legeriintus como interior; legeri como leitura. Ou seja: inteligente é aquele que empreende uma viagem para dentro de si; aquele que se conhece, que “se lê”, que tem o autoconhecimento. Mergulhe em si mesmo, sobretudo, mergulhe em Deus. Aliás, o batismo é um “mergulho” na Vida Divina.

Vontade é decisão. Para os judeus o órgão do corpo humano referente aos sentimentos não é o coração, e sim o estômago, as vísceras. O coração é o órgão da decisão. Portanto, quando se lê na Bíblia: “Amar a Deus de todo o coração”, entenda-se: decididamente.

Quando Deus – que nos fez - dá-nos o mandamento, a ordem de amar, assim o faz não com o intuito autoritário, “mandão”, e sim de “ordenar” nosso viver para sermos felizes. Amar a Deus e usar as coisas e, não usar a Deus e amar as coisas! Dizem que a gramática do verdadeiro cristão é invertida: ELE, Tu, eu; e não EU, Tu, ele...

Grande abraço!!