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terça-feira, 20 de outubro de 2015

EMPARELHA

Resultado de imagem para paralelasO som do vento no mato,
Assemelha-se ao das águas no riacho,
E emparelha a infância que eu tive
À infância... em que me acho.

O mato na doce relutância de envergar-se,
A cabeça do afago a esquivar-se...

O som do vento no mato traz-me
O lento esvair do tempo no tempo que a alma conta.
Como se a vida estivesse pronta,
Sem arestas, sem pontas,
À espera do meu pensamento.

sábado, 15 de agosto de 2015

FLERTE



Flerto de tão perto (e a esmo)
A loucura e a insanidade.
Que chego, de mim mesmo, sentir uma inexplicável saudade.

Se há amor, eu invento manhãs.
E, suspenso, do alto afugento os tortos cães do pensamento...
E me vou, e me vôo, e me vou.

Flerto de tão perto a demência,
Que mudo a aparência à minha alma dada.
E choro, e  rio, e oro por horas e horas a fio...
De espada.

Flerto de tão perto o absurdo
Que a tudo relativizo.
E diviso, em meu próprio rosto, a mortalha.
E cego, enxergo mudo. E, surdo, para meu desgosto,
No velho espelho da vida,
Pinto o reflexo (suicida) de um novo canalha.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

PLÁGIO

AmeriqueMeridionaleRigobertBonne.jpg

O mar é uma mentira, um plágio,                                          
Que me tira do sério e me leva... 
Ao naufrágio.

Um ágil pirata, espadachim a rasgar a vela,
A singrar em mim aquela bela rima...
Que mata.

O mar corsário, único e vário,
Vil e lúdico, pulha e pudico.

O mar mergulha fundo e raso,
No que sonho, no que vazo,
Quando vou ou quando fico.

O mar é uma mentira que há.
Quem tirará o mar de mim?

terça-feira, 21 de outubro de 2014

CORES

Há cores invisíveis. Que se dão aquém da retina.
Que se escondem atrás da cortina,
E não se deixam entrever.

Há cores nuas. Sensuais. Cores menos, cores mais.
Sem pudores, castas, vastas e banais.
Há cores de não se ver.

Há cores tantas, desconhecidas. Sem pretensão, esmaecidas, internas.
Que se apresentam sempre e quando, inerte, tu hibernas.

Há cores que a poesia conhece (e somente ela!). Há cores, ah!, há cores-sons.
A cor do verso e da rima que a palavra esgrima com o poeta,
Que amanhece e anoitece a inflar a vela dos pulmões. Há, sim, há cores-sons!

Há cores tantas e diversas,
Inversas à janela dos olhos, imersas no vento sem fim.
Há cores que existem no silêncio de quem se ouve e se vê por dentro,

Há cores que tento pintar em mim.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

ALMA PORTUGUESA


Há uma alma portuguesa por se revelar,
Uma guitarra no peito e um fadista na garganta.
Um gotejar de notas tristes que não se estanca,
Uma amarra prestes a desatar.

Há uma alma brasileira (também),
Que brada seu sonoro amém ao fim da oração.
Que se orgulha e que borbulha de mistura e miscigenação (tantas),
Um átimo que dura toda a vida, um amor da mais pura medida,
Uma Fátima e uma Aparecida (santas).

Há um não sei quê de tristeza que se quer por companhia,
Há uma noite que se quer dia, um dia que se quer noite,
Um açoite que se quer corpo, um corpo que se quer açoite.

Há uma alma portuguesa por se revelar,
E uma saudade que não sei se é saudade de mim (incerteza!)
Ou se vem do (salgado) mar.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

INSONE


Cães ladram, lobos uivam:
É noite na mente escura.
Nada escapa aos dentes dessa matilha,
Ao escalpo dessa faca,
Ao frio dessa paura.

Cães ladram, lobos uivam:
As ruas são sua ilha de inexata proporção.
O som das patas do relógio, o tempo, à unha, marca:
Ninguém se desvencilha desse necrológio (como se supunha),
E a morte os sonhos em naufrágios abarca.

Cães ladram, lobos uivam:
O medo paga o óbolo ao silêncio.
A cada passo (será que ouço?) que sussurra no lóbulo pênsil a madrugada,
Do fundo do poço urra um vento inerte uma triste gargalhada.

Cães ladram, lobos uivam:
Mas, eis que vejo a luz do dia que amanhece!
Um pavio aceso num rosário, um sol de preces a afugentar os cães!
Ó, vãs noites! Ó, incerto itinerário que oferecem as sangrentas noites vãs!


sábado, 16 de agosto de 2014

OUTRAS HORAS

São outras as horas que percorro,
Como outras são as mortes das quais morro diariamente.
São vários os tempos e as distâncias,
Os vértices e as vertentes,
Vou da velhice à infância,
Do saber a ignorância,
Num breve momento em que sou ausente.

Vou. E não volto,
Como as águas às nascentes o fazem,
O Piraí me leva e em mim planta
O deserto, a sede e a miragem.

Vou. E não volto,
O Piraí me leva entre garças, capivaras e tucunarés.
Vou. E não volto,
Pois já não sou eu mais quem canta:
Quem canta és tu! Mas quem tu és?

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

NAU

Já é tarde: escuto essa voz...
Tarde para o que sonhaste tanto:
Preparaste demais...

Tarde para ir ou voltar,
Já não há mais tempo, já não há mais canto:
Preparaste demais...

Não há vento, nem velas a inflar,
Tintas ou telas, navios ou mar.
Ficaste no indeciso cais, ó Homem, ó Vida: Preparaste demais!

Foi-se a ousadia, o passo que não deste,
O traço que à caneta recusaste,  a voz que à garganta emudeceste!
Escolheste o medo, o lúgubre,
Sucumbiste ao dedo que em riste acusa:
Preparaste, demais e amiúde, ó triste alma difusa!

sábado, 3 de maio de 2014

HORDAS ANCESTRAIS

Vi nos meus lábios
O sorriso do meu pai.
No apinhado dos dentes – ai! –
As emoções cravadas no osso...

Ouvi do fosso da garganta
A voz das cordas vocais das hordas ancestrais a gritar:
“Vai! Levanta e canta! Porque nós – ah! –  já não somos mais!”

Vi, na barba falha,
A cega navalha da vida e da morte.
No torto corte que emoldura o rosto
O tempo a dizer: “Isto posto, lancemo-lo à sorte:
Rasgar ou tecer?”

Vi o que não vejo comumente,
O que à luz do dia não percebo.
Vi, tarde demais e claramente,
O que deveria ter visto cedo e urgentemente.


Saulo Soares

terça-feira, 29 de abril de 2014

ESCREVO

Escrevo porque me esqueço,
Pois a memória cobra um preço exorbitante: quanto mais passam os dias - obra ofegante! - Mais o que era perto se faz distante...

Escrevo porque me canso,
Pois não alcanço o tempo que passou. Escrevo porque vou...

Escrevo porque sou lento,
Porque leve o vento leva, porque chove, porque neva... cá dentro.

Escrevo porque me curvo, porque me turvo, porque não sei.
Escrevo porque hei, porque que um dia fui. Escrevo porque dilui...

Escrevo, pois me espera a morte e me chama à vida. Escrevo porque que é ferida...
Escrevo, pois quer queira ou não queira, um dia, na noite derradeira... não mais escreverei.




Saulo Soares

sábado, 7 de setembro de 2013

BAGAGEM

Trago na bagagem a miragem do que ainda verei.
Uns olhos sedentos de um colírio que, em tempos de delírio, inventei.
Trago o que sei e o que não sei... ainda.
 No bolso - o eu-moço -  e uma mensagem indecifrável (e linda).

Trago, num largo poço do peito, um laço e um nó desfeito,
O verde da Amador  e as andorinhas pousadas no fio.
Trago e os ofereço aos homens de toda a Terra,
Ao que acerta e ao que erra, as águas do meu rio.

Trago, de fato, a certeza de que em cada cidade
Habita um pouco de mim: (hei de encontrar-me inteiro!)
 Trago um não, um sim,
A beleza de um setembro e o calor de um janeiro.

Trago a crença de que o mundo é um só
E de que todos somos irmãos.
Trago o pão que, partido, une,
Que não pune por ser diferente,
Trago pão que se faz gente,
Trago gente que se faz pão.

Trago a mim e meu solitário caminho,
Trago o meu mundo para o mundo todo,
E o mundo todo pro diário do meu ninho.

Em Piraí ou noutro lado do planeta,
Entôo minha opereta, meu canto diverso, profundo, vago e verdadeiro:
O mundo é minha casa e minha casa é o mundo inteiro.




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PARA FERNANDO PESSOA

Odeio as odes quilométricas,
Patéticas em seu centro de dentro e de fora.
Com suas palavras ao encalço da mente,
Soam como o chato que não vai embora!

Odeio, frente e verso, as poesias imensas,
Seriam mais belas as folhas em branco,
Mais densas no solavanco que propõem,
Mais nobres na afronta que avertem!

Odeio o feio e frio fino fio das rimas
Forçadas de cima para baixo,
Poesia de estupro e estupor...

Odeio cavalgar o burro xucro das palavras
E supor Corcel imaginário, que as asas abre, Unicórnio.
Odeio a química poética de clorofórmio e zinabre!

VOLTA REDONDA, 09 DE NOVEMBRO

O uniforme da Companhia
Tem sangue e poeira.
Ainda me doem os cassetetes,
Os fuzis ainda apontam pra mim.

Ainda te amo no espaço e no tempo,

Com o calor da aciaria e o aço da mão que espalma.
Ainda te vejo com olhos de siderurgia,
No eterno noite-dia,
E no sem-fim da minha alma.

Ainda te amo com Ordem e Progresso,

Com a desordem dos meus versos e a melodia do meu canto.

Quisera amar-te ainda vivo!

Meu coração grevista, morto, tanto chora, tanto..

 Mas, pronto! Eis a hora: que mal te fiz?


Tantas balas cabem em meu peito,

Quanto em meu coração os Brasis.

sábado, 28 de julho de 2012

LUAR DE PIRAÍ

Aqui a lua nasce de trás da Cruz, padecer de Cristo.
E, de tantas luas que tenho visto,
Só esta nasce para morrer Jesus!

Nasce no Cruzeiro,
Junto aos discos-voadores
E na rota dos aviões...

Nasce no extremo da minha vista,
Finca no solo a bandeira
- como fez o astronauta na conquista -
Como fazem as mulheres nos corações!

Aqui a lua nasce de trás da Cruz, padecer de Cristo.
E, de tantas luas que tenho visto,
Só esta nasce para ver Jesus!

Foto: Alexandre Teixeira, Piraí (RJ).

segunda-feira, 2 de julho de 2012

PONTA DOS PÉS

Senti saudades tuas
Como os pés sentem
Das ruas por andar.

E caminhei na lembrança e no passado,
E cada passo dado nesta andança
Era um passo - meu Deus! - a mais por dar.

Senti saudades tuas
Mas agora eu sei:
Senti como sentem as ruas
Dos caminhos que andei!

segunda-feira, 25 de junho de 2012

MOINHOS

Vem você no vento
Bater as asas do moinho.
Mói meu coração de brisa que
Sozinho vai ao chão.

Vem você nas águas
Mover as pedras do moinho.
Leva em quedas meu coração sem tempo,
Sem unguento, sem emplastro, sem vastidão.

Vem você escrava
Mover as engrenagens do moinho.
Como refazer-me o caminho das veias,
Se o amor em pó misturou-se ao trigo?
Como, nas ceias, em tua boca encontrar o abrigo?


LÍDICE-ANGRA

A boca do túnel tem sede de mar e curva.
Um turvo azul-claro-verde
Que sangra da Serra a poesia.

Eu dei nome aos morros,
Nomes que você não fantasia.
Lá preguei meus olhos na paisagem,
E me embriaguei do colírio que havia... miragem.

A Serra. A serra  nem mesmo Serra seria
Se não fossem as letras estreitas,
Sujeitas à poesia e à solidão.

A Serra é o túmulo onde um dia,
Sepultarei o acúmulo da minha alma em versos na vastidão.




PERTO


Longe, no que me tange, existe.
É onde mora a felicidade com triste hábito de monge.
Onde tem mangue, mar, rio, serra, campo e deserto.
Longe, no que me tange, é perto.

Longe, no que me tange é ali na esquina.
Na curva do pé de tangerina,
Tangente do coração de Carolina.

Longe, no que me tange, é tenaz.
Não é distância quilométrica, nem futuro incapaz.

Longe inatingível é o que passou,
O tempo que não volta atrás.
É o tormento, o que está antes do muro do nascimento.
É o mugido do boi dos ancestrais.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PIRAHY, 03 DE SETEMBRO




Não se passa pela Serra das Araras
Sem o conhecimento de um tié-sangue,
Sem que um canto inunde o mangue e a Guanabara.

Nem por Arrozal, sem que no vento voe
Notas claras, belas e luzidias,
Ou pelos verdes olhos da Mata do Amador
Sem que a chuva denuncie, por lá, a cor dos dias!

Não se passa – cremos! – pelo Piraí,
Sem que um tucunaré seja um tucunaré a menos,
Sem que as curvas do seu leito
Tornem largo o estreito, perto o distante,
Novo o que foi desfeito.

Não se passa se a poesia
A atmosfera invade assim, de assalto,
E as doze palmeiras se enverguem do seu alto,
Saudando, respeitosamente, a primavera.
Não se passa sem que a tarde o dia vele,
Sem que, na linha da Capela de São Benedito,
O sol descanse e, aflito,
Um ipê-amarelo... amarele.

Foto: Capelinha de São Benedito, em Piraí (RJ). Fotógrafo: Alexandre Teixeira, Piraí (RJ).

sábado, 17 de setembro de 2011

NUVENS DE UM SEGUNDO


Atirava pedras na paineira

Pra fazer nuvens de um segundo.

E podia assim passar a vida inteira:

Atirando pedras na paineira

E pouco ligando pro mundo.

Mas o mundo devolveu as pedras que atirei.

A paineira? Já morreu!

E o menino, que era um rei, já não passa de um plebeu.

Não gosto de poesia assim,

Rimando desse jeito,

Atirava pedras na paineira

E acertava, em cheio, o meu peito.