terça-feira, 23 de setembro de 2014

INSONE


Cães ladram, lobos uivam:
É noite na mente escura.
Nada escapa aos dentes dessa matilha,
Ao escalpo dessa faca,
Ao frio dessa paura.

Cães ladram, lobos uivam:
As ruas são sua ilha de inexata proporção.
O som das patas do relógio, o tempo, à unha, marca:
Ninguém se desvencilha desse necrológio (como se supunha),
E a morte os sonhos em naufrágios abarca.

Cães ladram, lobos uivam:
O medo paga o óbolo ao silêncio.
A cada passo (será que ouço?) que sussurra no lóbulo pênsil a madrugada,
Do fundo do poço urra um vento inerte uma triste gargalhada.

Cães ladram, lobos uivam:
Mas, eis que vejo a luz do dia que amanhece!
Um pavio aceso num rosário, um sol de preces a afugentar os cães!
Ó, vãs noites! Ó, incerto itinerário que oferecem as sangrentas noites vãs!


sábado, 16 de agosto de 2014

OUTRAS HORAS

São outras as horas que percorro,
Como outras são as mortes das quais morro diariamente.
São vários os tempos e as distâncias,
Os vértices e as vertentes,
Vou da velhice à infância,
Do saber a ignorância,
Num breve momento em que sou ausente.

Vou. E não volto,
Como as águas às nascentes o fazem,
O Piraí me leva e em mim planta
O deserto, a sede e a miragem.

Vou. E não volto,
O Piraí me leva entre garças, capivaras e tucunarés.
Vou. E não volto,
Pois já não sou eu mais quem canta:
Quem canta és tu! Mas quem tu és?

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

NAU

Já é tarde: escuto essa voz...
Tarde para o que sonhaste tanto:
Preparaste demais...

Tarde para ir ou voltar,
Já não há mais tempo, já não há mais canto:
Preparaste demais...

Não há vento, nem velas a inflar,
Tintas ou telas, navios ou mar.
Ficaste no indeciso cais, ó Homem, ó Vida: Preparaste demais!

Foi-se a ousadia, o passo que não deste,
O traço que à caneta recusaste,  a voz que à garganta emudeceste!
Escolheste o medo, o lúgubre,
Sucumbiste ao dedo que em riste acusa:
Preparaste, demais e amiúde, ó triste alma difusa!

sábado, 3 de maio de 2014

HORDAS ANCESTRAIS

Vi nos meus lábios
O sorriso do meu pai.
No apinhado dos dentes – ai! –
As emoções cravadas no osso...

Ouvi do fosso da garganta
A voz das cordas vocais das hordas ancestrais a gritar:
“Vai! Levanta e canta! Porque nós – ah! –  já não somos mais!”

Vi, na barba falha,
A cega navalha da vida e da morte.
No torto corte que emoldura o rosto
O tempo a dizer: “Isto posto, lancemo-lo à sorte:
Rasgar ou tecer?”

Vi o que não vejo comumente,
O que à luz do dia não percebo.
Vi, tarde demais e claramente,
O que deveria ter visto cedo e urgentemente.


Saulo Soares

terça-feira, 29 de abril de 2014

ESCREVO

Escrevo porque me esqueço,
Pois a memória cobra um preço exorbitante: quanto mais passam os dias - obra ofegante! - Mais o que era perto se faz distante...

Escrevo porque me canso,
Pois não alcanço o tempo que passou. Escrevo porque vou...

Escrevo porque sou lento,
Porque leve o vento leva, porque chove, porque neva... cá dentro.

Escrevo porque me curvo, porque me turvo, porque não sei.
Escrevo porque hei, porque que um dia fui. Escrevo porque dilui...

Escrevo, pois me espera a morte e me chama à vida. Escrevo porque que é ferida...
Escrevo, pois quer queira ou não queira, um dia, na noite derradeira... não mais escreverei.




Saulo Soares

sábado, 7 de setembro de 2013

BAGAGEM

Trago na bagagem a miragem do que ainda verei.
Uns olhos sedentos de um colírio que, em tempos de delírio, inventei.
Trago o que sei e o que não sei... ainda.
 No bolso - o eu-moço -  e uma mensagem indecifrável (e linda).

Trago, num largo poço do peito, um laço e um nó desfeito,
O verde da Amador  e as andorinhas pousadas no fio.
Trago e os ofereço aos homens de toda a Terra,
Ao que acerta e ao que erra, as águas do meu rio.

Trago, de fato, a certeza de que em cada cidade
Habita um pouco de mim: (hei de encontrar-me inteiro!)
 Trago um não, um sim,
A beleza de um setembro e o calor de um janeiro.

Trago a crença de que o mundo é um só
E de que todos somos irmãos.
Trago o pão que, partido, une,
Que não pune por ser diferente,
Trago pão que se faz gente,
Trago gente que se faz pão.

Trago a mim e meu solitário caminho,
Trago o meu mundo para o mundo todo,
E o mundo todo pro diário do meu ninho.

Em Piraí ou noutro lado do planeta,
Entôo minha opereta, meu canto diverso, profundo, vago e verdadeiro:
O mundo é minha casa e minha casa é o mundo inteiro.




sexta-feira, 10 de agosto de 2012

PARA FERNANDO PESSOA

Odeio as odes quilométricas,
Patéticas em seu centro de dentro e de fora.
Com suas palavras ao encalço da mente,
Soam como o chato que não vai embora!

Odeio, frente e verso, as poesias imensas,
Seriam mais belas as folhas em branco,
Mais densas no solavanco que propõem,
Mais nobres na afronta que avertem!

Odeio o feio e frio fino fio das rimas
Forçadas de cima para baixo,
Poesia de estupro e estupor...

Odeio cavalgar o burro xucro das palavras
E supor Corcel imaginário, que as asas abre, Unicórnio.
Odeio a química poética de clorofórmio e zinabre!

VOLTA REDONDA, 09 DE NOVEMBRO

O uniforme da Companhia
Tem sangue e poeira.
Ainda me doem os cassetetes,
Os fuzis ainda apontam pra mim.

Ainda te amo no espaço e no tempo,

Com o calor da aciaria e o aço da mão que espalma.
Ainda te vejo com olhos de siderurgia,
No eterno noite-dia,
E no sem-fim da minha alma.

Ainda te amo com Ordem e Progresso,

Com a desordem dos meus versos e a melodia do meu canto.

Quisera amar-te ainda vivo!

Meu coração grevista, morto, tanto chora, tanto..

 Mas, pronto! Eis a hora: que mal te fiz?


Tantas balas cabem em meu peito,

Quanto em meu coração os Brasis.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

SOMBRAS DOS PROFETAS

     Sentei-me em frente à Matriz de Santana, encostado numa pilastra do canto. O sol batia em minhas costas e no prédio em frente as sombras das pilastras pareciam-me os Profetas do Aleijadinho.
     O zelador da Igreja abriu as janelas do coro . Num pensamento bobo fico esperando a Igreja cantar. Bobagem mesmo... Ele retirou das janelas duas casas de marimbondos. O relógio da Igreja marca cinco para as cinco. As sombras começam a envelhecer e a diminuir de tamanho, aproximando-se uma das outras para se unirem numa única profecia.
     Escrevo à medida que o sol enfraquece, à medida exata dos sentimentos das coisas. Agora passa um cachorro apressado como se atrasado para um encontro ou como se fosse o Coelho de Alice. Por que os cachorros andam apressados?
     De onde estou posso ver a Mata do Amador modificando-se no claro-escuro do sol. Passa um carro justamente quando o relógio bate cinco horas. Atrapalhou-me a ouvir o tempo dizer: Cinco a zero  para mim, Saulo!
     Agora quem passa é o Sr. Bento. Canta aquele vento frio... As andorinhas pousarão no fio do pára-raios e depois sumirão para o mistério dos seus ninhos. Quando de fato anoitecer, as mariposas terão um encontro marcado em torno da luz.
     Uma criança passa cantando uma canção que não sei. Agora já está na Praça, mas a melodia ficou cá em cima para eu aprender.
     Quanto não acontece num breve espaço de tempo! As sombras já não mais existem. Perdi outra profecia... Algumas luzes a mais acesas no Asilo e as andorinhas darão lugar às mariposas. Mas eu? A quem darei meus olhos interioranos, meus sentimentos caipiras? Quem velará pelas sombras e saberá do turno das andorinhas e mariposas? Eu que nada sei, volto para casa como o céu rosado sobre a cabeça... Piraí. Como bem diz o seu Hino: "... Pequeno gigante!".

sábado, 28 de julho de 2012

LUAR DE PIRAÍ

Aqui a lua nasce de trás da Cruz, padecer de Cristo.
E, de tantas luas que tenho visto,
Só esta nasce para morrer Jesus!

Nasce no Cruzeiro,
Junto aos discos-voadores
E na rota dos aviões...

Nasce no extremo da minha vista,
Finca no solo a bandeira
- como fez o astronauta na conquista -
Como fazem as mulheres nos corações!

Aqui a lua nasce de trás da Cruz, padecer de Cristo.
E, de tantas luas que tenho visto,
Só esta nasce para ver Jesus!

Foto: Alexandre Teixeira, Piraí (RJ).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

D. HIA


Sempre sorrindo, curvada como nas saudações nipônicas, D. Hia esbanja disposição. Recebe pensão lá no Banco. Por vezes a vi disputar (e vencer!) o que chamava de Grand Prix Aposentados e Pensionistas, circuito que vai da porta de entrada aos guichês de caixa. Diga-se de passagem: sem parar nos boxes!
            Quando implantaram a fila única, enquanto os demais concorrentes faziam a volta de apresentação, seguindo os limites das linhas, D. Hia cortava caminho. Antes mesmo de cruzar a linha de chegada já fazia gestos do que desejava: se o espelho do pagamento, numa mímica mesclada com coreografia, colocava a mão em frente ao rosto; se conta de luz, apontava para as lâmpadas; e assim vai D. Hia. Vai ou foi? Foi ou ia? Sei não...
            Maldosos, alguns, dizem que D. Hia deveria chamar-se D. Foi. A meu ver: D. Hia-fingiu-que-foi-mas-não-foi. Explico: sempre ao receber seu pagamento cumpre um ritual de trocados e trocadilhos com as notas. Pergunta se tantas dessas equivalem a tantas daquelas e... finge que vai. Volta e pede para trocar a de mil por duas de quinhentos e... finge que vai. A de quinhentos por cinco de cem e... finge que vai. Permita-me o leitor simplificar o nome de D. Hia para D. Hia Ioiô.
            Há poucos dias, ao fim do expediente, fui à Rodoviária para comprar umas revistas. Lá estavam, ela e sua filha, sentadas em frente ao embarque. Quem pensou que D. Hia ia, enganou-se. Era dia chuvoso e ofereceu-me sua sombrinha. Respondi (feito ela) imitando com gestos um volante nas mãos. Entendeu, sorriu e ficou a esperar o ônibus em que não viajaria. Lembrei-me não ser a primeira vez que a vejo neste mesmo horário no embarque.
            D. Hia foi a Banco com curativos nos braços e, no rosto, arranhões e mercúrio cromo. Falou-me, rouca, que havia caído na rua próxima a da padaria.  Disse-lhe algumas palavras de consolo e animação, despediu-se e, desta vez... foi. Não queria espelho, saldo, pagamento. Desejava apenas compartilhar um pouco de sua vida. Dias passaram e ela voltou, triunfal e sorridente. É... D. Hia Iaiá!
            Confesso que gosto de D. Hia e, por mais que vá prefiro sempre que volte.
P.S.: Finalmente D. Hia embarcou naquele ônibus. Destino: Eternidade.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

PONTA DOS PÉS

Senti saudades tuas
Como os pés sentem
Das ruas por andar.

E caminhei na lembrança e no passado,
E cada passo dado nesta andança
Era um passo - meu Deus! - a mais por dar.

Senti saudades tuas
Mas agora eu sei:
Senti como sentem as ruas
Dos caminhos que andei!

O SR. FARID E O CÉU


Perdemos o Sr. Farid... Que pena! Entretanto, o perdemos para Deus: então ganhamos.  Sentirei falta de seu inconfundível bom humor. Ah... O Sr. Farid era o tipo de pessoa que caminhava com um gratuito sorriso no rosto. Pronto a distribuí-lo generosa e largamente aos transeuntes e amigos. Era meu leitor. Confessou-me certa vez. Muito me orgulhou!
 Trazia consigo sempre uma anedota. Judeu, árabe, papagaio, português. Não importava; o que realmente valia era transmitir a alegria. O repertório era farto e, nós nos esbaldávamos. Quando ria quase não emitia som: as bochechas avolumadas pela graça, os olhos lacrimejantes pelo riso... Ríamos com o riso dele! É. É isso.
            Como nos fará falta! Quando soube de sua Passagem para o Senhor, fiquei imaginando ele chegando ao Céu. O Céu, amigos, não é “lugar” de mau humor e azedumes, não!  Perfeito para o Sr. Farid!
            São Pedro o avista, aperta e esfrega os olhos e diz esbaforido: “Senhor, Senhor, eu acho que é o Farid! Que faço?” E já se nota no canto da boca do Salvador da Humanidade nascer um sorriso divino. Mão no queixo, cabeça balançando suavemente em concordância e satisfação, se volta para o Guardião das Chaves e diz apressadamente: ”Como: o que faço?! Abre logo, Pedro, as portas, que eu e abro os braços! Meu querido amigo vem participar da nossa Alegria!
            Sr. Farid vem chegando, cada vez mais perto, e Pedro o recepciona. Pigarreia primeiro – hum, hum – manda dois anjos tocarem em terça um tã-nã-nã-tã-nã nas trombetas e, com ares solenes e celestiais diz quase solfejando em barítono: “Seja bem vindo, Farid; o Senhor te espera!” Ao que nosso saudoso e querido amigo retruca: “Pedrão, conhece aquela da Festa no Ceú...”
            Ah... Depois de sua Páscoa definitiva, encontrei-me com algumas pessoas: Carlinhos do Seu Zezé, Mackenzie, e outros tantos mais: todos se lamentando...
            Esta é a minha homenagem. Não poderia ser de outra forma. Não poderia trazer a tristeza dos obituários. Não, por certo, não... Precisava, sim, renovar a alegria que ele nos presenteava cotidianamente.      
      À sua família:  meus sentimentos e, principalmente, a certeza e a esperança dos que creem em Cristo: a fé na Ressurreição. Um dia todos  estaremos juntos! Sorrindo, alegres de uma Alegria que nada, nem mesmo mais a morte, poderá nos roubar!
Grande abraço,
Saulo Soares.  

segunda-feira, 25 de junho de 2012

MOINHOS

Vem você no vento
Bater as asas do moinho.
Mói meu coração de brisa que
Sozinho vai ao chão.

Vem você nas águas
Mover as pedras do moinho.
Leva em quedas meu coração sem tempo,
Sem unguento, sem emplastro, sem vastidão.

Vem você escrava
Mover as engrenagens do moinho.
Como refazer-me o caminho das veias,
Se o amor em pó misturou-se ao trigo?
Como, nas ceias, em tua boca encontrar o abrigo?


LÍDICE-ANGRA

A boca do túnel tem sede de mar e curva.
Um turvo azul-claro-verde
Que sangra da Serra a poesia.

Eu dei nome aos morros,
Nomes que você não fantasia.
Lá preguei meus olhos na paisagem,
E me embriaguei do colírio que havia... miragem.

A Serra. A serra  nem mesmo Serra seria
Se não fossem as letras estreitas,
Sujeitas à poesia e à solidão.

A Serra é o túmulo onde um dia,
Sepultarei o acúmulo da minha alma em versos na vastidão.




PERTO


Longe, no que me tange, existe.
É onde mora a felicidade com triste hábito de monge.
Onde tem mangue, mar, rio, serra, campo e deserto.
Longe, no que me tange, é perto.

Longe, no que me tange é ali na esquina.
Na curva do pé de tangerina,
Tangente do coração de Carolina.

Longe, no que me tange, é tenaz.
Não é distância quilométrica, nem futuro incapaz.

Longe inatingível é o que passou,
O tempo que não volta atrás.
É o tormento, o que está antes do muro do nascimento.
É o mugido do boi dos ancestrais.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

VASOS CHEIOS, VASOS VAZIOS




     Há uma bela canção do grupo Vencedores por Cristo que diz: “Enche-me, Espírito, mais que cheio quero estar. Eu, o menor dos teus vasos, posso muito transbordar.” A imagem da pequenez que transborda me é simpática. Quantos de nós consideramos que apenas alguns “grandes vasos” contribuem, fazem a diferença. Não. O menor, o vaso menor, por não reter tanto para si é capaz de muito transbordar.
     Sobre vasos, ainda, na internet a bela estória: um camponês tinha dois vasos que utilizava, cotidianamente, para buscar água para sua família. Um em cada ponta da vara trazida aos ombros. Um velho, outro novo. O vaso novo dirigiu-se ao velho dizendo: “Você é velho, rachado. Não consegue reter a água que recolhe. Quando chegamos em casa, ainda estou cheio. Retive a água. Já você... chega quase vazio!” O vaso velho, então, respondeu: “Mas você não reparou que o meu lado do caminho é muito mais florido!” Que maravilha! Enquanto a água vazava através das rachaduras feitas pelo tempo, regava o caminho e gerava beleza e vida!
     Há uma cultura que valoriza apenas aquele que produz. Que tem boa performance. Se não é produtivo, não tem valor. Descarta-se. Pena... Devemos, mais do que quantificar a produtividade, qualificar a produtividade. Não somos o que produzimos, somos o que somos em nossa dignidade: irmãos uns dos outros, pois filhos de Deus!
   Esta cultura (de morte) pretende incutir na sociedade um modelo de pensamento que, exemplificando, não dá valor aos idosos, aos enfermos que, para ela são “improdutivos”. Que considera – com pretextos e argumentos ímpios – descartáveis os bebês ainda não nascidos. Ora, deixemos seguir o seu curso e veremos que daquele ventre não nascerá um abacate e, sim, um ser humano, tão humano quanto nós, porém, extremamente mais frágil e indefeso.  São estágios de uma mesma vida e personalidade.
      Mais uma estória: um monge dirige-se ao Mestre e reclama: “Mestre, por mais que eu leia a Palavra, não consigo retê-la... leio e me esqueço... leio e me esqueço.” O Mestre pede que ele encha e esvazie o mesmo vaso diversas vezes. Diante do vaso vazio lhe diz: “Este vaso não reteve a água que você colocou nele... porém ele está cada vez mais limpo!
     Já citei, em outras oportunidades, este verso do poeta cubano Sylvio Rodrigues, mas vale repetir: “Meu amor não aceita fronteiras, como a primavera não escolhe jardim.”     
     Seguir, como aquele vaso que sofreu rachaduras, desilusões, tristezas, decepções, e que, no entanto, sai a florir o seu caminho. Agir como o pequeno que transborda o amor que recebe. Encher-se de amor e esvaziar-se em doação e cada vez ficar mais limpo. Mirar-se na cruz Daquele que nos redimiu em seu amor que salva e ressuscitou para nos dar a Verdadeira Vida. Que Deus nos ajude a perseverar!

                                                                               Grande abraço! 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TUDO O QUE SE FAZ OU NÃO ( O AMOR A DEUS)

“Eu amo, mesmo, exatamente, pois amar é tudo o que se faz ou não”. Esta é uma frase de uma das belas músicas de Paulinho Pedra Azul, talentoso compositor mineiro. De fato: ou se ama ou não. O amor é um divisor de águas. Sem Ele nada podemos. Digo isso, pois o amor é o que dá valor aos atos. São Paulo nos recorda esta verdade quando no famoso texto bíblico nos ensina que ainda que falássemos a língua dos homens e dos anjos, que tivéssemos toda ciência, fé; mesmo se distribuíssemos todos os nossos bens aos pobres ou entregássemos nosso corpo para ser queimado... se não tivéssemos amor em cada uma dessas ações, de nada valeria.

Salvo engano, é de Madre Tereza de Calcutá a afirmação: “Deus não nos perguntará pelo tanto que nós fizemos; mas por quanto amor colocamos em nossos atos.” Mas, por que falo dessas coisas? Porque Deus é Amor e nós somos feitos à Sua imagem e semelhança! Se a nossa natureza é imagem e semelhança de Deus que é Amor, somos também, em princípio, Amor- respeitadas as limitações da criatura diante do seu Criador - e, apenas no Amor encontramos a razão, a realização e sentido de nossas vidas. Tudo o que se faz com Amor – ainda que não reconhecido pelo outro – não passa sem ser percebido por Deus e ganha ares de eternidade, pois Deus é eterno.

O Mandamento Maior nos fala do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Ensina-nos ainda que, ama a Deus aquele que faz Sua Vontade. E a Sua vontade é que todos cheguem ao Seu conhecimento, à vida eterna. Ora, o ser humano é dotado de inteligência e vontade. Li dia desses um significado atribuído à palavra inteligência: intus legeriintus como interior; legeri como leitura. Ou seja: inteligente é aquele que empreende uma viagem para dentro de si; aquele que se conhece, que “se lê”, que tem o autoconhecimento. Mergulhe em si mesmo, sobretudo, mergulhe em Deus. Aliás, o batismo é um “mergulho” na Vida Divina.

Vontade é decisão. Para os judeus o órgão do corpo humano referente aos sentimentos não é o coração, e sim o estômago, as vísceras. O coração é o órgão da decisão. Portanto, quando se lê na Bíblia: “Amar a Deus de todo o coração”, entenda-se: decididamente.

Quando Deus – que nos fez - dá-nos o mandamento, a ordem de amar, assim o faz não com o intuito autoritário, “mandão”, e sim de “ordenar” nosso viver para sermos felizes. Amar a Deus e usar as coisas e, não usar a Deus e amar as coisas! Dizem que a gramática do verdadeiro cristão é invertida: ELE, Tu, eu; e não EU, Tu, ele...

Grande abraço!!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O NÓ NA GRAVATA DE UM CERTO JOÃO BATISTA


Não sei bem por onde começar... Vez em quando as ideias me vêm como num quebra-cabeça... Diga-se de passagem: nunca fui bom com quebra-cabeças e, confesso, também, em dar nós em gravatas. Aliás, poderia fazer uma lista de coisas singelas em que não sou bom. Nem ao menos mediano! Mas não é isso que importa.
Por causa da minha profissão uso gravata. E já notei a diferença quando sou atendido e estou usando gravata, ou não. Uma pena... Uma gravata não diz muito sobre o que somos. Gilberto Gil afirma que: “Se eu quiser falar com Deus... Tenho que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios...”. Folgar os nós... dos sapatos. Logo a imagem me remeteu a João Batista dizendo que, de Jesus, ele não era digno de desatar as sandálias. Pensei, também, em Moisés escutando do Senhor: "Tira as sandálias dos teus pés, pois o solo que tu pisas é santo."
Tudo isso quis dizer para lhes contar o que me aconteceu: estava numa loja, num Shopping em Volta Redonda, sendo tratado como “senhor pra cá, senhor pra lá” (obviamente estava de gravata). De repente se volta para mim uma mulher, negra, uns 30 anos, com as pernas atrofiadas, de muletas e me pede: “Dá um laço no cadarço do meu tênis?”  Olhei nos olhos dela; eles sorriram. Ela não entenderia nada se lhe dissesse que eu “não era digno da dar um laço no seu tênis”. Ou se falasse de João Batista, Moisés, Gilberto Gil. Mas me senti assim: indigno – eu, com toda a minha mobilidade e acessibilidade, num mundo feito para alguns, não para todos; indo e vindo como me garante a Constituição – não era digno, de fato, de dar aquele laço. Mas dei. Lembrei-me do meu filho quando pequeno, no tempo em que o ajudava a dar laços para ir ao Jardim; recordei-me, também, do menino pobrezinho no Central, em Barra do Piraí, à margem do campo e das oportunidades, com a chuteira boquiaberta, chorando por não saber dar laços em cadarços esfiapados. Como temos, meu Senhor e meu Deus, cadarços em fiapos com os quais não conseguimos fazer laços em nossas vidas!
Preciso discordar de Gil: se eu quiser, de fato, falar com Deus, devo dar ainda muitos laços, mas não em "meus sapatos e gravatas"...
Deus é incomparavelmente bom e amoroso! Fala-nos muito mais ao coração do que aos ouvidos! Louvado seja Deus para sempre! Ah: e Ele sabe tudo de quebra-cabeças e de nós em gravatas...

Grande abraço,
Saulo Soares.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PIRAHY, 03 DE SETEMBRO




Não se passa pela Serra das Araras
Sem o conhecimento de um tié-sangue,
Sem que um canto inunde o mangue e a Guanabara.

Nem por Arrozal, sem que no vento voe
Notas claras, belas e luzidias,
Ou pelos verdes olhos da Mata do Amador
Sem que a chuva denuncie, por lá, a cor dos dias!

Não se passa – cremos! – pelo Piraí,
Sem que um tucunaré seja um tucunaré a menos,
Sem que as curvas do seu leito
Tornem largo o estreito, perto o distante,
Novo o que foi desfeito.

Não se passa se a poesia
A atmosfera invade assim, de assalto,
E as doze palmeiras se enverguem do seu alto,
Saudando, respeitosamente, a primavera.
Não se passa sem que a tarde o dia vele,
Sem que, na linha da Capela de São Benedito,
O sol descanse e, aflito,
Um ipê-amarelo... amarele.

Foto: Capelinha de São Benedito, em Piraí (RJ). Fotógrafo: Alexandre Teixeira, Piraí (RJ).

sábado, 17 de setembro de 2011

O HOMEM QUE NÃO DAVA BOM DIA

Lúcio de Mendonça. Fazíamos fila para entrar. Cantávamos hinos. Bandeira hasteada. Desse tempo muitas saudades e, hoje em especial, uma lembrança musical: “Bom dia nada custa ao nosso coração, que bom fazer feliz o nosso irmão! Por Deus se deve amar, amar sem distinção! Alô, bom dia, irmão!” Corrijam-me os contemporâneos a letra da canção. Pois bem. Li uma pequena estória com o seguinte título: “Você age ou reage?” Fala de alguém que sempre agradecia ao jornaleiro e este, impassível, não respondia. Questionado por que continuava a ser educado, respondeu: “Por que não? Por que eu iria deixar que fosse ele quem decidisse como eu devo agir?”.

Eis a chave: agir ou reagir? A maioria de nós reage. E, também na maioria das vezes, desproporcionalmente à ação.

Mas porque tudo isso? Bem, assim como o personagem da estória, havia alguém a quem eu sempre sorria, cumprimentava, dava bom dia e... nada.

Aquilo me incomodava sobremaneira: o que devo ter feito para que aquela pessoa fosse assim comigo? Eu sou muito distraído. Santo Deus! E, de sobra, não enxergo muito bem. Em algum momento, com certeza, de alguma forma eu a ofendi.

Coincidentemente, encontrei-me com ela num elevador e – num “descuido de sua parte” - entendi por que ela não me sorria: seus dentes, ou o que restaram deles. O meu comportamento exigia dela um sorriso que, creio, ela até gostaria de dar, mas que lhe causava constrangimento, suponho.

Como somos inaptos para julgamento! Objetivamente, sob a ótica da Lei, é preciso o julgamento – ainda que este também seja passível de erros. Afinal, faz parte da Justiça absolver, condenar. Entretanto, falo desses “julgamentos subjetivos”, pessoais, que exercemos diariamente sobre os outros e quase nunca sobre nós mesmos. É o que nos fala Jesus: “... com a mesma medida que julgardes sereis julgados... não julgueis para não serdes julgados...”. E nos exorta, aponta-nos um caminho: “... Sede misericordiosos...”.

O homem que não dava bom dia não era avaro de gentilezas, não, creio. Talvez até as tivesse de sobra, abundantemente e as desejasse compartilhar com muitos. Porém...

Atendi esses dias uma senhora que, igualmente, “não dava bom dia”. Lembrei-me das “cáries” de nossa alma. Ela ia falando e eu tentando imaginá-la como uma criança triste que a vida, por um desses motivos mais tristes ainda, roubou-lhe a capacidade de “dar bom dia”, de cantar aquela canção. Imaginei-a na fila do Lúcio de Mendonça, de blusa branca, saia azul marinho, bolso com o brasão do Estado do Rio de Janeiro, balançando as tranças ao ritmo da bandeira acariciada pelo vento, cantarolando. De repente, olha para mim, sorri e diz: bom dia. Diz aquela música na simplicidade dos seus versos: “e a gente, sem saber como e porquê, se sente feliz e sai a cantar uma alegre canção!”.

Grande abraço.


NUVENS DE UM SEGUNDO


Atirava pedras na paineira

Pra fazer nuvens de um segundo.

E podia assim passar a vida inteira:

Atirando pedras na paineira

E pouco ligando pro mundo.

Mas o mundo devolveu as pedras que atirei.

A paineira? Já morreu!

E o menino, que era um rei, já não passa de um plebeu.

Não gosto de poesia assim,

Rimando desse jeito,

Atirava pedras na paineira

E acertava, em cheio, o meu peito.

domingo, 17 de julho de 2011

LIBERDADE?


A liberdade é, antes de tudo, a liberdade de quem discorda de nós.” Rosa de Luxemburgo. De fato, o quanto nos aprisiona aceitar somente quem tem pensamentos iguais aos nossos. O quanto nos limita. Ter como “inimigo” quem apenas... discorda ou pensa diferente. Não nos odeia, nem trama planos contra nós, apenas ...discorda.

Entretanto, há liberdade e Liberdade. “A liberdade do lobo não pode justificar o extermínio dos cordeiros.” Isaiah Berlin. Ou seja, a liberdade, por si só, não nos diz muito se a ela não estiverem associados valores como Justiça, Amor, Verdade e Serviço. “Libertos para Servir”. Parece um paradoxo, mas é a mais pura verdade. A liberdade para o “mal” não é liberdade. João Paulo II, em Fides et Ratio, nos diz: “[...] Em outras palavras, a liberdade não se realiza nas opções contra Deus. Na verdade como poderia ser considerado um uso autêntico da liberdade, a recusa de se abrir àquilo que permite a realização de si mesmo?” E quanto o “outro” e o “serviço” nos realizam...

Por fim, um poema. Paul Eluard:

Nos meus cadernos de escola

Nas carteiras e nas árvores

Nas areias e na neve

Escrevo o teu nome

Em toda página lida

Em toda página em branco

Pedra papel sangue ou cinza

Escrevo o teu nome

Na minha porta de entrada

Nos objetos familiares

Nos ondas de fogo lento

Escrevo o teu nome

Em toda carne cedida

Na fronte de meus amigos

Em cada mão que se estende

Escrevo o teu nome

E ao poder de uma palavra

Reconheço minha vida

Nasci para conhecer-te

E chamar-te

Liberdade

terça-feira, 5 de julho de 2011

O QUE PENSEI PELA MANHÃ


Gratidão. Como é importante sermos gratos e como, invariavelmente, amigos, esquecemos de sê-lo. Dizem que os muçulmanos têm para a palavra “ser humano” a tradução: “aquele que se esquece”. E para Deus: “Aquele que se lembra”. Por essa razão, eles, variadas vezes ao longo dos seus dias, voltam-se para a cidade sagrada de Meca, para simplesmente lembrar-se Dele.

Recordo-me de Jesus. Continuamente dando graças ao Pai. A propósito: Eucaristia significa “ação de graças”, agradecer. Antes de realizar o milagre da multiplicação dos pães – assim como na ceia derradeira – Ele eleva os dons e... agradece ao Pai. Daí então se segue o milagre. O milagre é sucedâneo ao agradecimento.

Já nos demos conta de quantos “milagres” podemos realizar com pequenos gestos de gratidão? O quanto de bondade, de paz e harmonia podemos “multiplicar” em nossos relacionamentos, no nosso ambiente familiar e de trabalho?

Não, não sou daqueles que pretendem desmistificar os milagres de Jesus, de fazer reducionismos e dar outras versões. O que Ele fez foi, de fato, um milagre. Ponto. Sem duplas interpretações. O que pretendo dizer é: quantos ensinamentos podemos retirar dos milagres por Ele realizados. O mínimo agradecido pode multiplicar-se e tornar-se o “máximo”; pode a muitos “alimentar” com o pão da esperança e do bom convívio.

O que pensei pela manhã ficou comigo o dia inteiro. Multiplicou-se. Agradecer é reconhecer, no favor e gratuidade do outro, o próprio outro que se oferece. Agradecer é tornar agradável o ar que se respira em comum.

Agradecimentos e, em contraparte, reclamações. Murmuramos exageradamente... Sei disso; também sou assim. Basta um pequeno tropeço, uma mínima contrariedade para deixarmos claro nosso descontentamento. Esquecemos, rapidamente, a “montanha” de benefícios recebidos e os depositamos diante de uma “pedrinha” de aborrecimentos. Esquecemos. Parece termos uma espécie de “memória seletiva”. Apta e pronta para recordar o mal, porém frágil e débil para a lembrança do bem recebido. Esmaecida para a gratidão e em vivas tintas para sentimentos como a vingança e a falta de perdão.

Bela é a oração de Santo Inácio, que ora transcrevo: Toma, Senhor, e recebe toda a minha liberdade e a minha memória também. O meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo Tu me deste com amor. Todos os dons que me deste com gratidão Te devolvo. Dispõe deles, Senhor, segundo a Tua vontade. Dá-me somente o Teu amor, tua graça. Isso me basta, nada mais quero pedir”.

O que pensei pela manhã, da semana passada, ficou comigo até o presente momento. Como um trigo que se planta, colhe, tritura, amassa, fermenta, coze e se transforma em pão. Graças a Deus!

Obrigado a todos vocês que agora me lêem e tem lido ao longo desses anos. Sou-lhes muito grato, de coração.

Grande abraço.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

SEGURANÇA E PAZ


Não são a mesma coisa. A paz vai além. O Senador Cristovam Buarque, no O Globo de 23 de abril, em “Além da Segurança”, afirma: “Quando ocorre um crime como o de Realengo, a busca pela segurança prevalece sobre a idéia da paz. Mesmo para garantir a segurança imediata é preciso se ter a perspectiva da paz no médio e longo prazo.”

A palavra para a paz em hebraico é Shalom. Como nos recorda Santini em Os quatro caminhos - página 46 – Editora O Lutador - ela é grafada por três consoantes: Shin, Lamed, Mem. Shin é simbolizada por uma labareda. Lamed, uma balança. Mem, um odre d’água. Fácil deduzir que simbolicamente, a paz é o equilíbrio (balança), entre o fogo (labareda) e a água (jarro). É de Santo Agostinho a conhecida frase: “A virtude está no meio”. Os budistas, por sua vez, conhecem o “caminho do meio”.

E o que isso quer dizer: que devemos buscar o equilíbrio em nossas relações. O quanto de nossos pequenos atos cotidianos contribuem para a formação de um comportamento que, muitas vezes, ultrapassa o nível de uma atitude pessoal e auxilia na sedimentação de um padrão social questionável?

De um grande amigo advogado escutei: “O objetivo da Justiça é a Paz Social.” Ora, deveria também ser um dos nossos. Muito mais do que um carro zero; zero violência. Entretanto, é preciso uma cultura, uma “educação para a paz”. Saint-Exupéry: “Se você quer construir um navio, ensine as pessoas o anseio pelo mar.”

Se desejamos a paz, devemos cultivá-la, ensiná-la nos lares, nas escolas, no trabalho, no trânsito, nas filas, enfim, na vida. Gosto muito da frase de João Paulo II: “Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.” Perdoar, perdoar-se, pedir perdão. Passos sem os quais não caminharemos em direção à paz.

Para finalizar: é conhecida a passagem bíblica da parábola do joio e do trigo. De como devemos esperar crescerem juntos para depois separá-los e a eles dar destinos diferentes. Mas como diferenciá-los? Dizem que o joio se mantém ereto, altivo. Já o trigo, em virtude dos frutos que produz, curva-se, pendendo numa postura de humildade, pelo peso das sementes que carrega, num implícito reconhecimento da bondade do Criador. Altivez, arrogância e infertilidade se diferenciam substancialmente da humildade, dos bons frutos, da doação e do serviço.

Há um mundo a ser modificado. Um “assim na Terra como no Céu” a ser realizado. Mãos à obra!

Grande abraço.





domingo, 13 de março de 2011

ESCOLHAS E RENÚNCIAS



Missa dominical, Igreja de Santa Therezinha, Santanésia. Padre Joaquim recordou-nos, com simplicidade e inteligência, que cada escolha representa também uma renúncia e que, tudo querer, é infantilidade. Se escolhemos estar aqui agora, renunciamos a estar lá. Discorreu, também, sobre sabedoria e cultura. Dizia: a cultura vem dos livros, a sabedoria, da vida. Esta é a razão de existirem tantos sábios incultos e tantas pessoas cultas, porém, sem sabedoria.
Sabedoria deriva, etimologicamente, de sabor. Sabe aquele que sente o sabor. E é aqui que eu quero chegar. Quantos de nós conhecemos a Deus apenas pelos livros, culturalmente, e quantos conhecemos a Ele porque O saboreamos? “Provai e vede quão suave é o Senhor”, diz a Palavra. Vejo tanta gente pregando um deus conceitual, feito de capítulos e versículos decorados, um deus “feito à imagem e semelhança” de quem o propõe. Invariavelmente um deus vingativo e rancoroso, um deus sectário e pouco misericordioso, um “deus” que não é “Deus”.
John Lennon, em sua música God, diz que “Deus é um conceito pelo qual medimos a nossa dor.” Deus não é um conceito, John, mas, de fato, queremos fazer Dele isso: uma idéia, um abstrato. Queremos transformar Alguém em algo e, assim, manipulá-Lo à guisa dos nossos frágeis e inconstantes nervos. Se estou triste, Deus para mim é isso; se estou alegre, Deus para mim é aquilo; se estou nessa igreja, se estou naquela...
Deus não está em “várias versões” – light ou diet - numa prateleira, à venda, conforme os impulsos de nosso consumismo sentimental. Não. Deus é Deus. O mesmo ontem, hoje e sempre.
Interessante o fato de Jesus Ressuscitado manifestar-se com as marcas do Crucificado. O que foi posto numa cruz é o mesmo que ressuscitou. Não é outra pessoa. Não dá para aceitar o Ressuscitado sem também o Crucificado e vice-versa. Cruz e Glória se fundem na pessoa do Cristo. Humanidade e Divindade.
É preciso escolher a Deus, escolher o Bem, integralmente, sem subterfúgios. E essa é a grande escolha de nossas existências.
Escolhas e renúncias. Assim é tecida a trama de nossas vidas.

Grande abraço,

Saulo Soares

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

POR QUEM DOBRAM OS SINOS?


Há uma significativa e consoladora imagem judaica sobre a morte: um navio de partida. Dizem: quando alguém morre é como se um navio desaparecesse na linha do horizonte. Não mais o vemos. No entanto, do outro lado, no Grande Porto, avistam-no e, alegres o saúdam os que antes partiram.
A linha do horizonte é a linha da visão, do que podemos enxergar. Não se trata, notem, de uma linha linha vertical, mas, horizontal, igualitária. De fato, a morte nos iguala e põe por terra as diferenças num grande abraço. A cruz também traz esse sentido: o encontro de uma linha fincada na terra e apontando para o céu na vertical e de outra, que se estende no horizonte, como braços que a todos quer enlaçar...
Uma bela e antiga homilia sobre o Sábado Santo diz que, "descendo à mansão dos mortos", Jesus procura por Adão, estende-lhe a mão e lhe diz:"...Eu sou o teu Deus...Levanta-te, pois não te criei para que fiques prisioneiro... Eu sou a Vida dos mortos". Que Deus amoroso! Fomos feitos para estarmos em pé, não curvados. Livres e para a Vida que ele nos reservou em seu Amor que ressuscita!
Gustavo Corção, em Lições de Abismo, recorda-nos a caráter inevitável da morte. Entretanto, diz ele, quando ela chega a nós ou a um dos nossos nos parece um absurdo. E por que? Porque em nós, penso – mesmo nos descrentes! - há um latente germe de eternidade a sussurrar: "Sois de Deus, sois do Eterno!"
A morte nos faz "lembrar" o que está por vir: a nossa partida. Torna-nos mais conscientes da nossa humanidade e deveria fazer de nós mais solidários e urgentes no bem. No samba "Quando eu me chamar saudade", de Nelson Cavaquinho, podemos escutar: "Sei que amanhã quando eu morrer, os meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração. Alguns até hão de chorar e querer me homenagear fazendo de ouro um violão... Mas depois que o tempo passar, sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora. Por isso é que eu penso assim: se alguém quiser fazer por mim, que faça agora!" E termina: "Me dê as flores em vida, o carinho, a mão amiga, para aliviar meus ais! Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidades, quero preces e nada mais!"
Com certeza você viu partir pessoas amadas. Estão em Deus, creia! Lembro-me o que me disse um jovem, citando uma canção: "As flores de plástico não morrem..." Retruquei: "Não, as flores de plástico não vivem..." Não somos de plástico, nem descartáveis, temos valor, vivemos!
Cada um de nós é uma obra única, irrepetível, rara, de incalculável valor! É o que nos diz um trecho de "Meditações XVII", do inglês John Donne:"Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída... a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.
Por fim, João 12,24: "Se um grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto."
Sigamos em frente! Deus está ao nosso lado!

Grande abraço,

Saulo Soares


Dedico ao Dr. Fernando Arantes Leal estas linhas. Mais do que um profissional exemplar, um ser humano formidável, um amigo do qual sentiremos muitas saudades.

sábado, 30 de outubro de 2010

DESESPERAR, JAMAIS!


Parte do meu final de semana é dedicada à leitura de jornais e revistas. Até aí, nada de mais. Contudo, faço-o de tesoura e caneta nas mãos. Tenho essa mania: recortar os artigos que penso serão interessantes ou úteis para alguém. Descobri que é hereditário. Dia desses encontrei uma pasta que pertencia ao meu pai repleta de recortes. Frases sublinhadas, setas, exclamações, adendos, tudo com sua inconfundível letra triangular.
         Li, pois, nesta faina semanal, com tristeza, a seguinte afirmação: “A esperança não transforma o mundo. Não transforma sua vida. Sem querer ofender ninguém: a esperança se tornou obsoleta”. Recortei, como de costume, porém... não tinha para quem entregar. Fiquei por um bom (?) tempo a matutar. E aqui abro um parêntesis sobre o tempo: “Pequena é a parte da vida que vivemos. Pois todo restante não é vida, mas somente tempo.”, diz Sêneca...
         Ora, penso que a amarga autora confundiu o sentido que nós, os que esperamos, damos à Esperança. Mas ainda: os que acreditamos ser ela – a Esperança – uma Virtude.
      De fato, a Esperança não é inoperante ou ineficaz. Lembro-me, por exemplo, da experiência do Professor Victor Frankl, que nos afirmou que, nos Campos de Concentração, os que “esperavam” eram os que sobreviviam. Ele esperou... Creio que o correto seria atribuir à teimosia a obsolescência e ineficiência. Se me permite o leitor, citarei uma frase – desconheço o autor – mas que por certo virá esclarecer-nos um pouco mais: “A teimosia é uma degeneração da perseverança”. Ora, a teimosia, sim, é a insistência no erro, enquanto perseverança é persistir no que é justo, correto e bom.
         E há entre a perseverança e a esperança muito mais do que uma simples rima: há um tempo vivido, de uma forma especial vivido, vivido com fé.
      O que eu quero dizer com isso tudo é que já nos tiraram tantas coisas e nos impuseram tantas outras mais, sem sequer nos perguntar se estávamos de acordo ou não! Agora querem nos roubar a Esperança?!
         Guardei o recorte que fala da “morte” da Esperança (já que popularmente ela é a última que morre!) e prometi-me não entregá-lo a ninguém. Talvez o queime em alguma fogueira de São João...
         Mas, continuo com a mesma mania: jornais, revistas, canetas e tesouras. E esta me levou a outro pequeno texto, este atribuído a Mario de Andrade: “...O essencial faz a vida valer à pena. E para mim, basta o essencial!” E, para mim, Mário, a Esperança é essencial. É a essência dos sonhos e, os sonhos a poesia da vida e, a vida, meu amigo, um milagre cotidiano repleto de... Esperança.

Grande abraço,


Saulo Soares