segunda-feira, 25 de junho de 2012

MOINHOS

Vem você no vento
Bater as asas do moinho.
Mói meu coração de brisa que
Sozinho vai ao chão.

Vem você nas águas
Mover as pedras do moinho.
Leva em quedas meu coração sem tempo,
Sem unguento, sem emplastro, sem vastidão.

Vem você escrava
Mover as engrenagens do moinho.
Como refazer-me o caminho das veias,
Se o amor em pó misturou-se ao trigo?
Como, nas ceias, em tua boca encontrar o abrigo?


LÍDICE-ANGRA

A boca do túnel tem sede de mar e curva.
Um turvo azul-claro-verde
Que sangra da Serra a poesia.

Eu dei nome aos morros,
Nomes que você não fantasia.
Lá preguei meus olhos na paisagem,
E me embriaguei do colírio que havia... miragem.

A Serra. A serra  nem mesmo Serra seria
Se não fossem as letras estreitas,
Sujeitas à poesia e à solidão.

A Serra é o túmulo onde um dia,
Sepultarei o acúmulo da minha alma em versos na vastidão.




PERTO


Longe, no que me tange, existe.
É onde mora a felicidade com triste hábito de monge.
Onde tem mangue, mar, rio, serra, campo e deserto.
Longe, no que me tange, é perto.

Longe, no que me tange é ali na esquina.
Na curva do pé de tangerina,
Tangente do coração de Carolina.

Longe, no que me tange, é tenaz.
Não é distância quilométrica, nem futuro incapaz.

Longe inatingível é o que passou,
O tempo que não volta atrás.
É o tormento, o que está antes do muro do nascimento.
É o mugido do boi dos ancestrais.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

VASOS CHEIOS, VASOS VAZIOS




     Há uma bela canção do grupo Vencedores por Cristo que diz: “Enche-me, Espírito, mais que cheio quero estar. Eu, o menor dos teus vasos, posso muito transbordar.” A imagem da pequenez que transborda me é simpática. Quantos de nós consideramos que apenas alguns “grandes vasos” contribuem, fazem a diferença. Não. O menor, o vaso menor, por não reter tanto para si é capaz de muito transbordar.
     Sobre vasos, ainda, na internet a bela estória: um camponês tinha dois vasos que utilizava, cotidianamente, para buscar água para sua família. Um em cada ponta da vara trazida aos ombros. Um velho, outro novo. O vaso novo dirigiu-se ao velho dizendo: “Você é velho, rachado. Não consegue reter a água que recolhe. Quando chegamos em casa, ainda estou cheio. Retive a água. Já você... chega quase vazio!” O vaso velho, então, respondeu: “Mas você não reparou que o meu lado do caminho é muito mais florido!” Que maravilha! Enquanto a água vazava através das rachaduras feitas pelo tempo, regava o caminho e gerava beleza e vida!
     Há uma cultura que valoriza apenas aquele que produz. Que tem boa performance. Se não é produtivo, não tem valor. Descarta-se. Pena... Devemos, mais do que quantificar a produtividade, qualificar a produtividade. Não somos o que produzimos, somos o que somos em nossa dignidade: irmãos uns dos outros, pois filhos de Deus!
   Esta cultura (de morte) pretende incutir na sociedade um modelo de pensamento que, exemplificando, não dá valor aos idosos, aos enfermos que, para ela são “improdutivos”. Que considera – com pretextos e argumentos ímpios – descartáveis os bebês ainda não nascidos. Ora, deixemos seguir o seu curso e veremos que daquele ventre não nascerá um abacate e, sim, um ser humano, tão humano quanto nós, porém, extremamente mais frágil e indefeso.  São estágios de uma mesma vida e personalidade.
      Mais uma estória: um monge dirige-se ao Mestre e reclama: “Mestre, por mais que eu leia a Palavra, não consigo retê-la... leio e me esqueço... leio e me esqueço.” O Mestre pede que ele encha e esvazie o mesmo vaso diversas vezes. Diante do vaso vazio lhe diz: “Este vaso não reteve a água que você colocou nele... porém ele está cada vez mais limpo!
     Já citei, em outras oportunidades, este verso do poeta cubano Sylvio Rodrigues, mas vale repetir: “Meu amor não aceita fronteiras, como a primavera não escolhe jardim.”     
     Seguir, como aquele vaso que sofreu rachaduras, desilusões, tristezas, decepções, e que, no entanto, sai a florir o seu caminho. Agir como o pequeno que transborda o amor que recebe. Encher-se de amor e esvaziar-se em doação e cada vez ficar mais limpo. Mirar-se na cruz Daquele que nos redimiu em seu amor que salva e ressuscitou para nos dar a Verdadeira Vida. Que Deus nos ajude a perseverar!

                                                                               Grande abraço! 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

TUDO O QUE SE FAZ OU NÃO ( O AMOR A DEUS)

“Eu amo, mesmo, exatamente, pois amar é tudo o que se faz ou não”. Esta é uma frase de uma das belas músicas de Paulinho Pedra Azul, talentoso compositor mineiro. De fato: ou se ama ou não. O amor é um divisor de águas. Sem Ele nada podemos. Digo isso, pois o amor é o que dá valor aos atos. São Paulo nos recorda esta verdade quando no famoso texto bíblico nos ensina que ainda que falássemos a língua dos homens e dos anjos, que tivéssemos toda ciência, fé; mesmo se distribuíssemos todos os nossos bens aos pobres ou entregássemos nosso corpo para ser queimado... se não tivéssemos amor em cada uma dessas ações, de nada valeria.

Salvo engano, é de Madre Tereza de Calcutá a afirmação: “Deus não nos perguntará pelo tanto que nós fizemos; mas por quanto amor colocamos em nossos atos.” Mas, por que falo dessas coisas? Porque Deus é Amor e nós somos feitos à Sua imagem e semelhança! Se a nossa natureza é imagem e semelhança de Deus que é Amor, somos também, em princípio, Amor- respeitadas as limitações da criatura diante do seu Criador - e, apenas no Amor encontramos a razão, a realização e sentido de nossas vidas. Tudo o que se faz com Amor – ainda que não reconhecido pelo outro – não passa sem ser percebido por Deus e ganha ares de eternidade, pois Deus é eterno.

O Mandamento Maior nos fala do amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Ensina-nos ainda que, ama a Deus aquele que faz Sua Vontade. E a Sua vontade é que todos cheguem ao Seu conhecimento, à vida eterna. Ora, o ser humano é dotado de inteligência e vontade. Li dia desses um significado atribuído à palavra inteligência: intus legeriintus como interior; legeri como leitura. Ou seja: inteligente é aquele que empreende uma viagem para dentro de si; aquele que se conhece, que “se lê”, que tem o autoconhecimento. Mergulhe em si mesmo, sobretudo, mergulhe em Deus. Aliás, o batismo é um “mergulho” na Vida Divina.

Vontade é decisão. Para os judeus o órgão do corpo humano referente aos sentimentos não é o coração, e sim o estômago, as vísceras. O coração é o órgão da decisão. Portanto, quando se lê na Bíblia: “Amar a Deus de todo o coração”, entenda-se: decididamente.

Quando Deus – que nos fez - dá-nos o mandamento, a ordem de amar, assim o faz não com o intuito autoritário, “mandão”, e sim de “ordenar” nosso viver para sermos felizes. Amar a Deus e usar as coisas e, não usar a Deus e amar as coisas! Dizem que a gramática do verdadeiro cristão é invertida: ELE, Tu, eu; e não EU, Tu, ele...

Grande abraço!!

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O NÓ NA GRAVATA DE UM CERTO JOÃO BATISTA


Não sei bem por onde começar... Vez em quando as ideias me vêm como num quebra-cabeça... Diga-se de passagem: nunca fui bom com quebra-cabeças e, confesso, também, em dar nós em gravatas. Aliás, poderia fazer uma lista de coisas singelas em que não sou bom. Nem ao menos mediano! Mas não é isso que importa.
Por causa da minha profissão uso gravata. E já notei a diferença quando sou atendido e estou usando gravata, ou não. Uma pena... Uma gravata não diz muito sobre o que somos. Gilberto Gil afirma que: “Se eu quiser falar com Deus... Tenho que folgar os nós dos sapatos, da gravata, dos desejos, dos receios...”. Folgar os nós... dos sapatos. Logo a imagem me remeteu a João Batista dizendo que, de Jesus, ele não era digno de desatar as sandálias. Pensei, também, em Moisés escutando do Senhor: "Tira as sandálias dos teus pés, pois o solo que tu pisas é santo."
Tudo isso quis dizer para lhes contar o que me aconteceu: estava numa loja, num Shopping em Volta Redonda, sendo tratado como “senhor pra cá, senhor pra lá” (obviamente estava de gravata). De repente se volta para mim uma mulher, negra, uns 30 anos, com as pernas atrofiadas, de muletas e me pede: “Dá um laço no cadarço do meu tênis?”  Olhei nos olhos dela; eles sorriram. Ela não entenderia nada se lhe dissesse que eu “não era digno da dar um laço no seu tênis”. Ou se falasse de João Batista, Moisés, Gilberto Gil. Mas me senti assim: indigno – eu, com toda a minha mobilidade e acessibilidade, num mundo feito para alguns, não para todos; indo e vindo como me garante a Constituição – não era digno, de fato, de dar aquele laço. Mas dei. Lembrei-me do meu filho quando pequeno, no tempo em que o ajudava a dar laços para ir ao Jardim; recordei-me, também, do menino pobrezinho no Central, em Barra do Piraí, à margem do campo e das oportunidades, com a chuteira boquiaberta, chorando por não saber dar laços em cadarços esfiapados. Como temos, meu Senhor e meu Deus, cadarços em fiapos com os quais não conseguimos fazer laços em nossas vidas!
Preciso discordar de Gil: se eu quiser, de fato, falar com Deus, devo dar ainda muitos laços, mas não em "meus sapatos e gravatas"...
Deus é incomparavelmente bom e amoroso! Fala-nos muito mais ao coração do que aos ouvidos! Louvado seja Deus para sempre! Ah: e Ele sabe tudo de quebra-cabeças e de nós em gravatas...

Grande abraço,
Saulo Soares.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

PIRAHY, 03 DE SETEMBRO




Não se passa pela Serra das Araras
Sem o conhecimento de um tié-sangue,
Sem que um canto inunde o mangue e a Guanabara.

Nem por Arrozal, sem que no vento voe
Notas claras, belas e luzidias,
Ou pelos verdes olhos da Mata do Amador
Sem que a chuva denuncie, por lá, a cor dos dias!

Não se passa – cremos! – pelo Piraí,
Sem que um tucunaré seja um tucunaré a menos,
Sem que as curvas do seu leito
Tornem largo o estreito, perto o distante,
Novo o que foi desfeito.

Não se passa se a poesia
A atmosfera invade assim, de assalto,
E as doze palmeiras se enverguem do seu alto,
Saudando, respeitosamente, a primavera.
Não se passa sem que a tarde o dia vele,
Sem que, na linha da Capela de São Benedito,
O sol descanse e, aflito,
Um ipê-amarelo... amarele.

Foto: Capelinha de São Benedito, em Piraí (RJ). Fotógrafo: Alexandre Teixeira, Piraí (RJ).

sábado, 17 de setembro de 2011

O HOMEM QUE NÃO DAVA BOM DIA

Lúcio de Mendonça. Fazíamos fila para entrar. Cantávamos hinos. Bandeira hasteada. Desse tempo muitas saudades e, hoje em especial, uma lembrança musical: “Bom dia nada custa ao nosso coração, que bom fazer feliz o nosso irmão! Por Deus se deve amar, amar sem distinção! Alô, bom dia, irmão!” Corrijam-me os contemporâneos a letra da canção. Pois bem. Li uma pequena estória com o seguinte título: “Você age ou reage?” Fala de alguém que sempre agradecia ao jornaleiro e este, impassível, não respondia. Questionado por que continuava a ser educado, respondeu: “Por que não? Por que eu iria deixar que fosse ele quem decidisse como eu devo agir?”.

Eis a chave: agir ou reagir? A maioria de nós reage. E, também na maioria das vezes, desproporcionalmente à ação.

Mas porque tudo isso? Bem, assim como o personagem da estória, havia alguém a quem eu sempre sorria, cumprimentava, dava bom dia e... nada.

Aquilo me incomodava sobremaneira: o que devo ter feito para que aquela pessoa fosse assim comigo? Eu sou muito distraído. Santo Deus! E, de sobra, não enxergo muito bem. Em algum momento, com certeza, de alguma forma eu a ofendi.

Coincidentemente, encontrei-me com ela num elevador e – num “descuido de sua parte” - entendi por que ela não me sorria: seus dentes, ou o que restaram deles. O meu comportamento exigia dela um sorriso que, creio, ela até gostaria de dar, mas que lhe causava constrangimento, suponho.

Como somos inaptos para julgamento! Objetivamente, sob a ótica da Lei, é preciso o julgamento – ainda que este também seja passível de erros. Afinal, faz parte da Justiça absolver, condenar. Entretanto, falo desses “julgamentos subjetivos”, pessoais, que exercemos diariamente sobre os outros e quase nunca sobre nós mesmos. É o que nos fala Jesus: “... com a mesma medida que julgardes sereis julgados... não julgueis para não serdes julgados...”. E nos exorta, aponta-nos um caminho: “... Sede misericordiosos...”.

O homem que não dava bom dia não era avaro de gentilezas, não, creio. Talvez até as tivesse de sobra, abundantemente e as desejasse compartilhar com muitos. Porém...

Atendi esses dias uma senhora que, igualmente, “não dava bom dia”. Lembrei-me das “cáries” de nossa alma. Ela ia falando e eu tentando imaginá-la como uma criança triste que a vida, por um desses motivos mais tristes ainda, roubou-lhe a capacidade de “dar bom dia”, de cantar aquela canção. Imaginei-a na fila do Lúcio de Mendonça, de blusa branca, saia azul marinho, bolso com o brasão do Estado do Rio de Janeiro, balançando as tranças ao ritmo da bandeira acariciada pelo vento, cantarolando. De repente, olha para mim, sorri e diz: bom dia. Diz aquela música na simplicidade dos seus versos: “e a gente, sem saber como e porquê, se sente feliz e sai a cantar uma alegre canção!”.

Grande abraço.


NUVENS DE UM SEGUNDO


Atirava pedras na paineira

Pra fazer nuvens de um segundo.

E podia assim passar a vida inteira:

Atirando pedras na paineira

E pouco ligando pro mundo.

Mas o mundo devolveu as pedras que atirei.

A paineira? Já morreu!

E o menino, que era um rei, já não passa de um plebeu.

Não gosto de poesia assim,

Rimando desse jeito,

Atirava pedras na paineira

E acertava, em cheio, o meu peito.

domingo, 17 de julho de 2011

LIBERDADE?


A liberdade é, antes de tudo, a liberdade de quem discorda de nós.” Rosa de Luxemburgo. De fato, o quanto nos aprisiona aceitar somente quem tem pensamentos iguais aos nossos. O quanto nos limita. Ter como “inimigo” quem apenas... discorda ou pensa diferente. Não nos odeia, nem trama planos contra nós, apenas ...discorda.

Entretanto, há liberdade e Liberdade. “A liberdade do lobo não pode justificar o extermínio dos cordeiros.” Isaiah Berlin. Ou seja, a liberdade, por si só, não nos diz muito se a ela não estiverem associados valores como Justiça, Amor, Verdade e Serviço. “Libertos para Servir”. Parece um paradoxo, mas é a mais pura verdade. A liberdade para o “mal” não é liberdade. João Paulo II, em Fides et Ratio, nos diz: “[...] Em outras palavras, a liberdade não se realiza nas opções contra Deus. Na verdade como poderia ser considerado um uso autêntico da liberdade, a recusa de se abrir àquilo que permite a realização de si mesmo?” E quanto o “outro” e o “serviço” nos realizam...

Por fim, um poema. Paul Eluard:

Nos meus cadernos de escola

Nas carteiras e nas árvores

Nas areias e na neve

Escrevo o teu nome

Em toda página lida

Em toda página em branco

Pedra papel sangue ou cinza

Escrevo o teu nome

Na minha porta de entrada

Nos objetos familiares

Nos ondas de fogo lento

Escrevo o teu nome

Em toda carne cedida

Na fronte de meus amigos

Em cada mão que se estende

Escrevo o teu nome

E ao poder de uma palavra

Reconheço minha vida

Nasci para conhecer-te

E chamar-te

Liberdade

terça-feira, 5 de julho de 2011

O QUE PENSEI PELA MANHÃ


Gratidão. Como é importante sermos gratos e como, invariavelmente, amigos, esquecemos de sê-lo. Dizem que os muçulmanos têm para a palavra “ser humano” a tradução: “aquele que se esquece”. E para Deus: “Aquele que se lembra”. Por essa razão, eles, variadas vezes ao longo dos seus dias, voltam-se para a cidade sagrada de Meca, para simplesmente lembrar-se Dele.

Recordo-me de Jesus. Continuamente dando graças ao Pai. A propósito: Eucaristia significa “ação de graças”, agradecer. Antes de realizar o milagre da multiplicação dos pães – assim como na ceia derradeira – Ele eleva os dons e... agradece ao Pai. Daí então se segue o milagre. O milagre é sucedâneo ao agradecimento.

Já nos demos conta de quantos “milagres” podemos realizar com pequenos gestos de gratidão? O quanto de bondade, de paz e harmonia podemos “multiplicar” em nossos relacionamentos, no nosso ambiente familiar e de trabalho?

Não, não sou daqueles que pretendem desmistificar os milagres de Jesus, de fazer reducionismos e dar outras versões. O que Ele fez foi, de fato, um milagre. Ponto. Sem duplas interpretações. O que pretendo dizer é: quantos ensinamentos podemos retirar dos milagres por Ele realizados. O mínimo agradecido pode multiplicar-se e tornar-se o “máximo”; pode a muitos “alimentar” com o pão da esperança e do bom convívio.

O que pensei pela manhã ficou comigo o dia inteiro. Multiplicou-se. Agradecer é reconhecer, no favor e gratuidade do outro, o próprio outro que se oferece. Agradecer é tornar agradável o ar que se respira em comum.

Agradecimentos e, em contraparte, reclamações. Murmuramos exageradamente... Sei disso; também sou assim. Basta um pequeno tropeço, uma mínima contrariedade para deixarmos claro nosso descontentamento. Esquecemos, rapidamente, a “montanha” de benefícios recebidos e os depositamos diante de uma “pedrinha” de aborrecimentos. Esquecemos. Parece termos uma espécie de “memória seletiva”. Apta e pronta para recordar o mal, porém frágil e débil para a lembrança do bem recebido. Esmaecida para a gratidão e em vivas tintas para sentimentos como a vingança e a falta de perdão.

Bela é a oração de Santo Inácio, que ora transcrevo: Toma, Senhor, e recebe toda a minha liberdade e a minha memória também. O meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo Tu me deste com amor. Todos os dons que me deste com gratidão Te devolvo. Dispõe deles, Senhor, segundo a Tua vontade. Dá-me somente o Teu amor, tua graça. Isso me basta, nada mais quero pedir”.

O que pensei pela manhã, da semana passada, ficou comigo até o presente momento. Como um trigo que se planta, colhe, tritura, amassa, fermenta, coze e se transforma em pão. Graças a Deus!

Obrigado a todos vocês que agora me lêem e tem lido ao longo desses anos. Sou-lhes muito grato, de coração.

Grande abraço.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

SEGURANÇA E PAZ


Não são a mesma coisa. A paz vai além. O Senador Cristovam Buarque, no O Globo de 23 de abril, em “Além da Segurança”, afirma: “Quando ocorre um crime como o de Realengo, a busca pela segurança prevalece sobre a idéia da paz. Mesmo para garantir a segurança imediata é preciso se ter a perspectiva da paz no médio e longo prazo.”

A palavra para a paz em hebraico é Shalom. Como nos recorda Santini em Os quatro caminhos - página 46 – Editora O Lutador - ela é grafada por três consoantes: Shin, Lamed, Mem. Shin é simbolizada por uma labareda. Lamed, uma balança. Mem, um odre d’água. Fácil deduzir que simbolicamente, a paz é o equilíbrio (balança), entre o fogo (labareda) e a água (jarro). É de Santo Agostinho a conhecida frase: “A virtude está no meio”. Os budistas, por sua vez, conhecem o “caminho do meio”.

E o que isso quer dizer: que devemos buscar o equilíbrio em nossas relações. O quanto de nossos pequenos atos cotidianos contribuem para a formação de um comportamento que, muitas vezes, ultrapassa o nível de uma atitude pessoal e auxilia na sedimentação de um padrão social questionável?

De um grande amigo advogado escutei: “O objetivo da Justiça é a Paz Social.” Ora, deveria também ser um dos nossos. Muito mais do que um carro zero; zero violência. Entretanto, é preciso uma cultura, uma “educação para a paz”. Saint-Exupéry: “Se você quer construir um navio, ensine as pessoas o anseio pelo mar.”

Se desejamos a paz, devemos cultivá-la, ensiná-la nos lares, nas escolas, no trabalho, no trânsito, nas filas, enfim, na vida. Gosto muito da frase de João Paulo II: “Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.” Perdoar, perdoar-se, pedir perdão. Passos sem os quais não caminharemos em direção à paz.

Para finalizar: é conhecida a passagem bíblica da parábola do joio e do trigo. De como devemos esperar crescerem juntos para depois separá-los e a eles dar destinos diferentes. Mas como diferenciá-los? Dizem que o joio se mantém ereto, altivo. Já o trigo, em virtude dos frutos que produz, curva-se, pendendo numa postura de humildade, pelo peso das sementes que carrega, num implícito reconhecimento da bondade do Criador. Altivez, arrogância e infertilidade se diferenciam substancialmente da humildade, dos bons frutos, da doação e do serviço.

Há um mundo a ser modificado. Um “assim na Terra como no Céu” a ser realizado. Mãos à obra!

Grande abraço.





domingo, 13 de março de 2011

ESCOLHAS E RENÚNCIAS



Missa dominical, Igreja de Santa Therezinha, Santanésia. Padre Joaquim recordou-nos, com simplicidade e inteligência, que cada escolha representa também uma renúncia e que, tudo querer, é infantilidade. Se escolhemos estar aqui agora, renunciamos a estar lá. Discorreu, também, sobre sabedoria e cultura. Dizia: a cultura vem dos livros, a sabedoria, da vida. Esta é a razão de existirem tantos sábios incultos e tantas pessoas cultas, porém, sem sabedoria.
Sabedoria deriva, etimologicamente, de sabor. Sabe aquele que sente o sabor. E é aqui que eu quero chegar. Quantos de nós conhecemos a Deus apenas pelos livros, culturalmente, e quantos conhecemos a Ele porque O saboreamos? “Provai e vede quão suave é o Senhor”, diz a Palavra. Vejo tanta gente pregando um deus conceitual, feito de capítulos e versículos decorados, um deus “feito à imagem e semelhança” de quem o propõe. Invariavelmente um deus vingativo e rancoroso, um deus sectário e pouco misericordioso, um “deus” que não é “Deus”.
John Lennon, em sua música God, diz que “Deus é um conceito pelo qual medimos a nossa dor.” Deus não é um conceito, John, mas, de fato, queremos fazer Dele isso: uma idéia, um abstrato. Queremos transformar Alguém em algo e, assim, manipulá-Lo à guisa dos nossos frágeis e inconstantes nervos. Se estou triste, Deus para mim é isso; se estou alegre, Deus para mim é aquilo; se estou nessa igreja, se estou naquela...
Deus não está em “várias versões” – light ou diet - numa prateleira, à venda, conforme os impulsos de nosso consumismo sentimental. Não. Deus é Deus. O mesmo ontem, hoje e sempre.
Interessante o fato de Jesus Ressuscitado manifestar-se com as marcas do Crucificado. O que foi posto numa cruz é o mesmo que ressuscitou. Não é outra pessoa. Não dá para aceitar o Ressuscitado sem também o Crucificado e vice-versa. Cruz e Glória se fundem na pessoa do Cristo. Humanidade e Divindade.
É preciso escolher a Deus, escolher o Bem, integralmente, sem subterfúgios. E essa é a grande escolha de nossas existências.
Escolhas e renúncias. Assim é tecida a trama de nossas vidas.

Grande abraço,

Saulo Soares

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

POR QUEM DOBRAM OS SINOS?


Há uma significativa e consoladora imagem judaica sobre a morte: um navio de partida. Dizem: quando alguém morre é como se um navio desaparecesse na linha do horizonte. Não mais o vemos. No entanto, do outro lado, no Grande Porto, avistam-no e, alegres o saúdam os que antes partiram.
A linha do horizonte é a linha da visão, do que podemos enxergar. Não se trata, notem, de uma linha linha vertical, mas, horizontal, igualitária. De fato, a morte nos iguala e põe por terra as diferenças num grande abraço. A cruz também traz esse sentido: o encontro de uma linha fincada na terra e apontando para o céu na vertical e de outra, que se estende no horizonte, como braços que a todos quer enlaçar...
Uma bela e antiga homilia sobre o Sábado Santo diz que, "descendo à mansão dos mortos", Jesus procura por Adão, estende-lhe a mão e lhe diz:"...Eu sou o teu Deus...Levanta-te, pois não te criei para que fiques prisioneiro... Eu sou a Vida dos mortos". Que Deus amoroso! Fomos feitos para estarmos em pé, não curvados. Livres e para a Vida que ele nos reservou em seu Amor que ressuscita!
Gustavo Corção, em Lições de Abismo, recorda-nos a caráter inevitável da morte. Entretanto, diz ele, quando ela chega a nós ou a um dos nossos nos parece um absurdo. E por que? Porque em nós, penso – mesmo nos descrentes! - há um latente germe de eternidade a sussurrar: "Sois de Deus, sois do Eterno!"
A morte nos faz "lembrar" o que está por vir: a nossa partida. Torna-nos mais conscientes da nossa humanidade e deveria fazer de nós mais solidários e urgentes no bem. No samba "Quando eu me chamar saudade", de Nelson Cavaquinho, podemos escutar: "Sei que amanhã quando eu morrer, os meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração. Alguns até hão de chorar e querer me homenagear fazendo de ouro um violão... Mas depois que o tempo passar, sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora. Por isso é que eu penso assim: se alguém quiser fazer por mim, que faça agora!" E termina: "Me dê as flores em vida, o carinho, a mão amiga, para aliviar meus ais! Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidades, quero preces e nada mais!"
Com certeza você viu partir pessoas amadas. Estão em Deus, creia! Lembro-me o que me disse um jovem, citando uma canção: "As flores de plástico não morrem..." Retruquei: "Não, as flores de plástico não vivem..." Não somos de plástico, nem descartáveis, temos valor, vivemos!
Cada um de nós é uma obra única, irrepetível, rara, de incalculável valor! É o que nos diz um trecho de "Meditações XVII", do inglês John Donne:"Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída... a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.
Por fim, João 12,24: "Se um grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto."
Sigamos em frente! Deus está ao nosso lado!

Grande abraço,

Saulo Soares


Dedico ao Dr. Fernando Arantes Leal estas linhas. Mais do que um profissional exemplar, um ser humano formidável, um amigo do qual sentiremos muitas saudades.

sábado, 30 de outubro de 2010

DESESPERAR, JAMAIS!


Parte do meu final de semana é dedicada à leitura de jornais e revistas. Até aí, nada de mais. Contudo, faço-o de tesoura e caneta nas mãos. Tenho essa mania: recortar os artigos que penso serão interessantes ou úteis para alguém. Descobri que é hereditário. Dia desses encontrei uma pasta que pertencia ao meu pai repleta de recortes. Frases sublinhadas, setas, exclamações, adendos, tudo com sua inconfundível letra triangular.
         Li, pois, nesta faina semanal, com tristeza, a seguinte afirmação: “A esperança não transforma o mundo. Não transforma sua vida. Sem querer ofender ninguém: a esperança se tornou obsoleta”. Recortei, como de costume, porém... não tinha para quem entregar. Fiquei por um bom (?) tempo a matutar. E aqui abro um parêntesis sobre o tempo: “Pequena é a parte da vida que vivemos. Pois todo restante não é vida, mas somente tempo.”, diz Sêneca...
         Ora, penso que a amarga autora confundiu o sentido que nós, os que esperamos, damos à Esperança. Mas ainda: os que acreditamos ser ela – a Esperança – uma Virtude.
      De fato, a Esperança não é inoperante ou ineficaz. Lembro-me, por exemplo, da experiência do Professor Victor Frankl, que nos afirmou que, nos Campos de Concentração, os que “esperavam” eram os que sobreviviam. Ele esperou... Creio que o correto seria atribuir à teimosia a obsolescência e ineficiência. Se me permite o leitor, citarei uma frase – desconheço o autor – mas que por certo virá esclarecer-nos um pouco mais: “A teimosia é uma degeneração da perseverança”. Ora, a teimosia, sim, é a insistência no erro, enquanto perseverança é persistir no que é justo, correto e bom.
         E há entre a perseverança e a esperança muito mais do que uma simples rima: há um tempo vivido, de uma forma especial vivido, vivido com fé.
      O que eu quero dizer com isso tudo é que já nos tiraram tantas coisas e nos impuseram tantas outras mais, sem sequer nos perguntar se estávamos de acordo ou não! Agora querem nos roubar a Esperança?!
         Guardei o recorte que fala da “morte” da Esperança (já que popularmente ela é a última que morre!) e prometi-me não entregá-lo a ninguém. Talvez o queime em alguma fogueira de São João...
         Mas, continuo com a mesma mania: jornais, revistas, canetas e tesouras. E esta me levou a outro pequeno texto, este atribuído a Mario de Andrade: “...O essencial faz a vida valer à pena. E para mim, basta o essencial!” E, para mim, Mário, a Esperança é essencial. É a essência dos sonhos e, os sonhos a poesia da vida e, a vida, meu amigo, um milagre cotidiano repleto de... Esperança.

Grande abraço,


Saulo Soares

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A COMIDA DOS PORCOS


Hipertensão, na Globo. Prova: uma jovem, com a cabeça dentro de uma caixinha transparente repleta de ratos, cobras e sapos, grita desesperadamente enquanto é girada de lá pra cá. Outros três jovens: diante deles e, à escolha como cardápio, minhocas, baratas ou sei lá mais o quê. Comem e vomitam. E tudo isso para salvar uma vida, ou como castigo ou tortura por se terem colocado contra algum regime ditatorial? Ou, ainda, por uma causa ambiental, social, política ou econômica? Uma revolta contra alguma injustiça? Não. Por dinheiro e fama. Ou, caso desejem, tratemos pelos nomes próprios desses dois: Avareza e Vaidade. É o “Topa Tudo por Dinheiro” na sua versão mais sarcástica e desumana. E o pior de tudo: ao invés de serem considerados dignos de pena por se prestarem (e prostrarem) a tais coisas por dinheiro, são tidos como uma espécie de heróis! Isso mesmo! E a que desistiu, não comeu o prato nojento, é, com certeza, alcunhada de perdedora e covarde. Big Brother, Hipertensão, tudo isso: o Capital rindo na nossa cara, cuspindo na nossa dignidade, escarrando na nossa alma.
Quanto mais a sociedade se afasta de Deus, que é o Absoluto, mais ela relativiza suas atitudes, seus comportamentos. Não crer em Deus, na prática, é não acreditar que somos feitos à Sua imagem e semelhança. É, portanto, perder ou recusar a dignidade de “filhos” de Deus. E, crer em Cristo, significa crer que nossa dignidade, nosso valor é tamanho que custou o sangue D’Ele, o Filho – com “F” maiúsculo – de Deus. Afinal, somos “filhos” no “Filho”. Ou seja, não há nada que valorize tanto o Homem, quanto a fé. A partir desta ótica, conscientes de nossa dignidade e filiação divina, entendemos o outro como irmão, filho do mesmo Pai, do Pai Nosso. Concebemos o ser humano e, em especial os mais frágeis – como os bebês – não como um “amontoado de células”, mas como nossos irmãos pequeninos e mais pobres. Esta, também é, de fato, além de uma opção pela Vida, uma “opção preferencial pelos pobres”.
É conhecida a passagem bíblica do Filho Pródigo que pede sua herança e, requerer a herança é, de certa forma, declarar morto o pai – pois herança se reparte após a morte – e sai pelo mundo, gasta tudo, até comer a “comida dos porcos”.
Nossa sociedade, sob certo aspecto, assemelha-se a esse filho em sua prodigalidade. Gastou, declarou Deus como morto, consumiu o valor recebido do Pai, a dignidade que Dele recebeu e alimenta-se da comida dos porcos, ou o que é mais triste, serve de espetáculo, comendo e vomitando via satélite minhocas, baratas, vermes... em troca de dinheiro.

Grande abraço,

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O HUMANO DESCARTÁVEL



O disco de vinil está de volta! Li, na coluna do Veríssimo que descobriram que as gravações em vinil eram superiores às digitais, em matéria de fidelidade sonora, em relação à reprodução dos harmônicos (???). Li, também, que a câmera digital não possui a qualidade do filme fotográfico, no que se refere à resolução e qualidade de imagens. Somente quando as digitais atingirem os 20 megapixels se igualarão às convencionais, dizem.
Mas porque digo isso? Às vezes, engolidos pela onda veloz da modernidade e do avanço tecnológico, pelos apelos do Marketing (exímio conhecedor da concupiscência humana) e pela sede voraz do Capital, descartamos o que ainda de bom e proveitoso há. Vivemos na era do descartável.
Mas quero ir adiante. O programa Café Filosófico, da TV Cultura, trouxe como tema “A volta do sagrado: superando a crise” – com a participação, dentre outros, do Rabino Nilton Bonder e do jornalista Eugenio Bucci. O Rabino trata do seu livro “A alma imoral”. De suas palavras – além da interessante “inversão” dos conceitos de corpo e alma - guardei a afirmação de que os judeus, espalhados pelo mundo, para se manterem coesos – como no espaço era impossível pela dispersão – utilizaram-se do tempo. Disse ele: ...”quando as três primeiras estrelas surgiam no céu, anunciando a chegada Sábado, os judeus, pelo mundo afora, uniam-se." Não tinham o espaço em comum, mas tinham o tempo. Tinham a alma.
O jornalista Eugenio Bucci falou sobre o “Humano descartável”. Começou pelo filme Matrix – ficção onde o ser humano serve como de fonte de energia para as máquinas – passou por Darwin e o Evolucionismo (destacando que a Teoria da Evolução seria uma justificativa para os moldes do Mercado Capitalista “`Predador”), por Richard Dawkins e a evolução do gene (seríamos apenas meios de transporte para os tais genes que, comandariam a “verdadeira” evolução e que, por fim, chegando onde pretendem, descartariam o humano) até a perpetuação do Capital e o fim do homem como hoje se entende. Complicado, não?
Pois é. Mas, de fato, cabe-nos uma pergunta: quanto o humano, hoje em dia, é descartável? Quanto descartamos da humanidade nos relacionamentos e nos valemos da virtualidade, da impessoalidade? Diferentemente dos judeus na Diáspora, perdemos o espaço e o tempo. A corporeidade e a alma. Não percebemos que, no descarte do “outro”, descartamos a nós mesmos, descartamos o “homem”. Não creio que a isso possa se chamar de “evolução”.
Se a Revolução Industrial tirou parte do trabalho dos músculos e o transferiu para as máquinas, a nova sociedade do conhecimento pretender fazer o mesmo com o labor do cérebro. Se o resultado disso fosse uma sociedade mais justa... Mas, não. Mais adiante – com corpo e mente “mecanizados” – o que mais será? As emoções? Os sentimentos? A alma?
Precisamos redescobrir nossa humanidade. Não somos “periféricos” de um “sistema”, “acessórios” de um “principal”. Somos homens e – literalmente – graças à Deus o somos!

Grande abraço,

domingo, 18 de julho de 2010

A CALMA


Perdemos a calma. E com ela – permita-me – a alma tranqüila. É de Renato Teixeira o belo verso: “A calma é irmã do simples e o simples resolve tudo.” Tem também aquela outra – diga-se de passagem - maravilhosa: “Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais.”
Nesses nossos tempos de fast-food, de velocidade e pressa, os dias passam, os meses passam e nós... passamos. Este ritmo acelerado demais não nos permite viver com intensidade, apenas com superficialidade. Não há mais tempo para a subjetividade, somente para a objetividade. E com tudo isso nossos valores foram mudando, nossos relacionamentos, nossas expectativas, nossa forma de ver o mundo.
É como numa viagem de trem. Se fixarmos os olhos num ponto próximo a nós, tudo passa tão ligeiro que não conseguimos distinguir a paisagem. Mas se colocarmos nosso olhar mais adiante, num horizonte mais amplo, a imagem se fixa e daí podemos enxergar mais claramente.
Quando se vive numa velocidade e ritmos tais, qualquer erro, ou desvio na rota, pode ser fatal para o desfecho final. À grandes velocidades pequenos movimentos fazem enorme diferença.
Estou para escrever sobre este assunto há tempos. Mas urgência dos dias me impediu. Não que eu considere que tudo deva ser moroso, não. Aquilo que, de alguma forma, possa facilitar a vida do homem, sem que traga más conseqüências maiores do que os seus benefícios, é válido. Falo aqui do que realmente importa. Li outro dia uma frase que achei interessante: “A vida exige mais compreensão do que conhecimento.” É disso que falo.
Sêneca me pareceu ter essa compreensão. Uma de suas frases de “Da vida feliz” (De vita beata) diz o seguinte: “Realmente não é fácil atingir a felicidade, porque, se alguém desviado do caminho se precipita para alcançá-la, fica sempre mais afastado da felicidade. Correndo em sentido contrário, a nossa própria pressa torna-se a causa de um contínuo distanciamento.”
O amor exige calma e paciência. A vida é para ser saboreada, contemplada. E não engolida.


Grande abraço,

GRANDE ENCONTRO DE SARAMAGO


Confesso que não gostava muito de Saramago. Achava-o arrogante. Não falo de seu estilo literário. Não li Saramago. Não o fiz por pura antipatia à sua pessoa. Dele apenas vi o filme inspirado em seu livro “Ensaio sobre a cegueira”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles. Muito bom. Poderia até ter me animado a lê-lo, mas não.
Bom, ele morreu. Sabemos que ele se dizia ateu. Porém, não havia lido também esta frase atribuída a ele: “Não sou um ateu total. Todos os dias procuro encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não encontro.” O que traz essa frase de diferente e animador: o “infelizmente”. Dizer “infelizmente” denota que gostaríamos que houvesse um outro desfecho que não esse. Entristecer-se por não encontrar um sinal de Deus, demonstra o real desejo de encontrá-lo. Santo Agostinho também tem uma frase: “Nada estará perdido enquanto estivermos em busca.” Isso vale para Saramago e sua busca diária.
Fui adiante na leitura das frases do autor e deparei-me com algumas bastantes interessantes. Refletem um pouco quem era Saramago, quem era “o homem atrás daqueles óculos”. Eis aqui algumas delas:

“Cada dia traz sua alegria e sua pena, e também sua lição proveitosa.”

O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas."

“Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos.”

“Há situações na vida em que já tanto nos dá perder por dez como perder por cem, o que queremos é conhecer rapidamente a última soma do desastre, para depois, se tal for possível, não voltarmos a pensar mais no assunto.”

“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia a mais.”

Há uns dias atrás foi o último para Saramago aqui conosco. Mas talvez tenha sido também o primeiro, novo e diferente dia que para ele nasceu. Talvez a sua busca tenha encontrado um fim, o seu cansaço, um descanso; e suas dúvidas, respostas. Talvez tenha chegado para ele a hora da descoberta que sabia muito mais do que julgava.

Grande abraço,

O CEGO DE JERICÓ E IVETE SANGALO




Viajar de ônibus tem – como quase tudo na vida – vantagens e desvantagens. Uma das vantagens (que pode não ser para alguns) é justamente o convívio com o inesperado e inusitado passageiro comum.
Barra do Piraí – Santanésia é um trecho rápido. Demora-se mais esperando o ônibus no ponto - e como! - do que efetivamente no trajeto. Duas senhoras evangélicas conversavam sobre a Ivete Sangalo: Você viu – disse uma – a Ivete incorporando espírito em pleno palco? Não?! Coloca lá no youtube: Ivete endemoninhada e você vai ver. Pensei cá comigo: Tempos atrás quem poderia imaginar um diálogo desses? E começaram a falar sobre o Apocalipse, chips implantados, catástrofes. Enfim, o mundo tinha acabado antes mesmo de chegarmos ao fim da viagem. Mas, isso foi na ida.
Na volta um cego entra no ônibus juntamente com sua acompanhante e começa um discurso eloqüente, capaz de deixar corado muito orador de carteirinha: “Uma excelente boa tarde, senhoras e senhores! Permita-me uma pequena interrupção nesta breve viagem...”. E assim foi - enquanto a acompanhante distribuía uns cartõezinhos xerocados - o seu discurso pedindo auxílio evocando as dificuldades da sua situação. De repente – como diria o Poetinha – não mais que de repente, saca de dentro de sua roupa uma... latinha de Pomarola segura por um fio amarrado por pequenos nós em furinhos nas laterais. Tudo cronometrado. Moedas tilintaram. Lá se foram as minhas também.
Logo correlacionei aquele cego do ônibus com o bíblico de Jericó. “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Que queres que eu te faça?", perguntou o Senhor. Ora, alguns podem argumentar criticando obviedade: “Que pergunta?! É claro que o cego quer ver!” Será? Não creio que o Senhor tenha sido bobo ou, como querem alguns, cômico ao fazer esta pergunta. De fato, muitas vezes, nos agarramos às nossas limitações, às nossas “cegueiras” e fazemos delas uma forma de obtermos um certo carinho, uma especial atenção. Por isso, procede, sim, perguntar: Queres, de fato, ver? Ou preferes a escuridão, agarrado às suas muletas e apoios?
Conta-se que um mineirinho, no tempo dos réis, todos os dias passava por uma venda e, lá os bebedores colocavam diversas moedas na mesa. A menor tinha maior valor e a maior, menor valor. Chamavam o mineirinho e pediam para ele escolher. Ele sempre escolhia a maior (de menor valor). E todos riam aos baldes. Um dia, um cidadão virou-se para o mineirinho e disse: “Você não sabe que a moeda menor tem maior valor? Por que não a escolhe?” Ele respondeu: “Sei, sim, senhor. Mas, no dia em que eu escolhê-la, acaba a brincadeira e eu perco esse dinheirinho todos os dias.” Simples.
Temos que ter caridade. Sem dúvida! Temos também que lutar para que todos tenham dignidade. Emprego, educação, oportunidades, abrem os olhos da mente... e do coração.

Grande abraço,

segunda-feira, 7 de junho de 2010

POSE DE BANDIDO


Conversando sobre as drogas, em especial o que se ouve dizer sobre elas em Piraí (em todo Piraí), retomo aqui algumas reflexões – algumas já publicadas - sobre o assunto: drogas, educação, religião e seus entrelaces.
Em artigo publicado na Revista de Domingo, de O Globo, intitulado “Pose de bandido”, Martha Medeiros chama nossa atenção sobre a atração que a “estética das gangues” exerce sobre a juventude, de um modo geral. Diz ela: “Temos sido vítimas não apenas de marginais profissionais, com Phd em maldade, mas também de garotos mimados que aceleram seus carrões sem medir conseqüências, que tomam decisões estúpidas por pura falta de orientação, que se metem em encrencas pesadas porque, se saltarem fora, temem ser considerados fracos, babacas. Não percebem que não há babaquice maior que fazer pose de bandido. [...] Ninguém mais quer ser da turma dos mocinhos. Por quê? O pessoal do bem anda precisando de uma boa assessoria de marketing.” Eu incluiria no texto: “filhinhos de papai” que espancam domésticas em pontos de ônibus, queimam índios e tantas tristezas mais ...
Como estamos criando nossos filhos? Para uma pose de mocinho ou de bandido? Para um belo quadro na parede ou para uma triste manchete de jornal?
Rafael Cifuentes – no caderno “Grandeza de coração”, da Ed. Quadrante – transcreve a seguinte carta de um delinqüente juvenil alemão aos seus pais e a todos os pais. Inclusive nós, pais Piraienses. Diz o seguinte: Porque vocês são fracos no bem, deram-nos o nome de fortes no mal... Com seu “não” vacilante, disseram-nos “sim”, a fim de pouparem seus frágeis nervos. E a isso deram nome de “amor”. Porque são fracos, compraram de nós o seu sossego. Quando éramos pequenos, davam-nos dinheiro para irmos ao cinema ou comprarmos sorvete. Com isso, estavam prestando um serviço, não a nós, mas à sua própria comodidade, porque são fracos. Fracos no amor, fracos na paciência, fracos na esperança, fracos na fé. Estaríamos dispostos a crer em Deus, no Deus infinitamente bom e forte, que tudo compreendesse e de nós esperasse que fôssemos bons, mas você não nos mostraram um só homem que fosse bom por crer em Deus... Em vez de nos ameaçarem com bastões de borracha, coloquem-nos frente a frente com homens de verdade, que acreditem em Deus e que nos mostrem o caminho certo... Porque vocês são fracos no bem, nós somos fortes no mal.”
Não dá para se colocar todo o peso desta cruz somente sobre os ombros dos pais. Mas parte, sim. Sei que é difícil e que muitas coisas fogem ao nosso controle e atenção. Há também, obviamente, a parcela da sociedade, do Estado, do restante do “pessoal do bem”, etc.
Todo pecado é uma busca desordenada pela felicidade, não é mesmo? O filósofo Kierkegaard diz que o indispensável é o Absoluto. Talvez estejamos preocupados em fornecer aos nossos filhos bens e benefícios importantes, mas relativos, não absolutos. O Bem, e tudo o que dele decorre, este sim é o indispensável Absoluto.


Grande abraço,

quarta-feira, 19 de maio de 2010

FUSCA NÃO ANDA, DESFILA.


Essa era a frase em adesivo no vidro traseiro de um simpático fusquinha à minha frente. Conta o Senador Cristovam Buarque que, sob um calor de “derreter Catedral”: " [...]há alguns anos, em um sinal de trânsito, às duas da tarde, em Manaus, o motorista mostrou-me o fusquinha ao lado e disse: “Ele fecha os vidros para dar a aparência que seu carro tem ar-condicionado. Na hora percebi que aquele era um retrato do Brasil. Não importava sentir calor, mas sim aparentar ter ar-condicionado.”


E arremata: “[...] aprendemos a esconder a as aparências do que não interessa ver. Felizmente, descobrimos a podridão na superfície da política, que aparece graças às denúncias da mídia, mas não vemos a ferrugem na engrenagem da sociedade inteira, porque nem a mídia, nem todos nós queremos ver. Somos um povo não só de aparências, mas de aparências escolhidas.”


Quanto de balela há no marketing político? Em tantas alardeadas “realizações”? Quanto de aparência? Quanto de tudo isso, como diz Caetano, não é “proveito, é pura fama” ou é somente para inglês ver? Recentemente acompanhamos a briga pelos royalties do petróleo. O Senador Buarque fez, também, com justiça, uma defesa do Rio. Concordo plenamente com os direitos exigidos por nosso Estado. Porém, ele dá início a uma reflexão muito interessante: argumenta que “mesmo após décadas recebendo royalties, a quase totalidade dessas cidades têm IDH – Índice de Desenvolvimento Humano - entre o 745º e o 4178º no ranking nacional. Isso porque parte desses recursos é usada em gastos correntes, não em investimentos em longo prazo.” E, faz um alerta: “E quando o petróleo acabar, ou quando o preço despencar por força da crise ecológica ou do uso de fontes renováveis de energia? Cita, também, a “maldição do petróleo” que atingiu países que consomem suas reservas e gastam seus recursos visando somente o presente. Imediatistas como o personagem da parábola do filho pródigo.


Ora, não basta ter o recurso. Não obstante existam leis que determinem sua utilização, é preciso administrá-lo e aplicá-lo corretamente ou corremos o risco de andarmos na sauna de um fusquinha de vidros fechados mas aparentar estar sob o frescor do ar-condicionado. Ou, ainda, o que é pior, continuaremos a ver despencar Morros do Bumba por aí, tanto pela falta de investimento, quanto como fruto de uma política anã que incentiva a troca de votos por milheiros de tijolos e sacos de cimento, bem como a cessão de espaços e vista grossa para construções em área de risco.


Na coluna do Góis, no O GLOBO, há época do calor das discussões sobre o pré-sal, saiu a seguinte nota: “Sermão outro dia do padre Marcos Belisário, da Igreja dos Santos Anjos, no Leblon:


- Alguém sabe por onde anda o dinheiro dos royalties do Rio? Pelo menos, a Emenda Ibsen serviu para levantar esta lebre. Onde foram aplicados estes R$ 7 bilhões anuais?


É. Faz sentido.


terça-feira, 27 de abril de 2010

AOS PÉS DA MINHA ÁFRICA


Uma das mais influentes personalidades americanas é negra e mulher. Oprah Winfrey. Apresentadora de um programa de TV assistido em quase todo mundo, é dona de uma inteligência e sagacidade incomuns. Tive a oportunidade de assisti-la conduzindo uma entrevista com Mike Tyson. Ela tem a capacidade de fazer as perguntas mais “incômodas” de uma forma, diríamos, “confortável” para o entrevistado. Recentemente recebeu a atriz Kristie Alley. Kristie ganhou peso de forma excessiva e sua batalha pelo emagrecimento transformou-se num reality show exibido em rede nacional. Ela revelou que o que a inspira a lutar é o poema Invictus, de autoria do inglês William E. Henley, que, conforme afirmou, manteve de pé Mandela nos seus longos 27 anos de prisão. E, juntas, Oprah e Kristie, recitaram de cor os versos finais: [...] Por ser estreita a senda – eu não declino/ Nem por pesada a mão que o mundo espalma; / Eu sou o dono e senhor do meu destino;/ Eu sou o comandante de minha alma.”
Mandela, de fato, é um grande homem. Um dos maiores que a nossa geração teve a oportunidade de conhecer. Após sofrer e ver seu povo sofrer tantas injustiças e violências, não se deixou levar pelo ódio e pela vingança. Ao contrário, uma das primeiras medidas do seu governo foi a Comissão Verdade e Reconciliação. Um tribunal moral, sem possibilidades de punição, onde testemunhos de diversas pessoas, de lados opostos, contribuíram para o nascimento de uma nova nação, onde a força da verdade se fez libertação, como no verso bíblico: “... e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!”
Tudo isso me fez lembrar outro poema, Aos pés da minha África, de Léopold S. Senghor. Diz o seguinte:

Aos pés da minha África,
Crucificada há quatrocentos anos,
Mas que ainda respira,
Deixa-me dizer-Te, Senhor,
A sua prece de paz e perdão.
Senhor Deus, perdoa a Europa branca!
Porque é preciso exatamente que Tu perdoes
Àqueles que caçaram meus filhos
Como a elefantes selvagens.
Porque é preciso exatamente que Tu esqueças
Aqueles que exportaram dez milhões de filhos
Nos leprosários de seus navios,
Que eliminaram duzentos milhões deles.
Senhor, o gelo de meus olhos se dissolve,
E eis que a serpente do ódio
Ergue a cabeça em meu coração,
Aquela serpente que eu julgava morta.
Mata-a, Senhor,
Porque eu devo prosseguir o meu caminho.



Somos todos irmãos, filhos de um mesmo Pai, de uma única raça: a raça humana.


Grande abraço,

terça-feira, 13 de abril de 2010

VINDE, BENDITOS DE MEU PAI!


Meu pai nasceu muito pobre. Foi adotado por um casal que, além dele, cuidou de mais 16 crianças carentes. Ele contava histórias da bondade dos meus avós para com todos, inclusive com os animais. Meu avô, Lao Monteiro de Carvalho, aposentava seus animais em gratidão aos serviços prestados. Belo exemplo!
Transcrevo, emocionado, a carta de meu pai aos seus, por ocasião da Páscoa de 1955, publicada no O NORTE FLUMINENSE, de Bom Jesus do Itabapoana.

“Mariana, Páscoa de 1955 – Queridos Papai e Mamãe – Salve Cristo Ressuscitado!

Não poderia eu permitir passasse esta festa cristã, tão significativa para nós, sem externar ao senhor e à mamãe os meus votos de santa e feliz Páscoa. A Páscoa é geralmente tomada como uma lembrança viva das vitórias de Cristo sobre as forças infernais. E deste pensamento surgem inúmeras conclusões que mexem profundamente com todo o nosso ser, com nossos sentimentos todos. Cristo venceu. Cristo ressuscitou.
Sua vitória, porém, não foi fácil. Antes, exigiu os mais ingentes sacrifícios, a mais imunda e negra das ingratidões, padecimentos tais, que tiveram fim numa cruz erguida entre vaias e apupos. Só a figura de Judas, indecisa e traidora, é suficiente para enegrecer todo este quadro, já por si mesmo tão escuro e repugnante. É bom notar que a vitória de Cristo não é uma vitória somente sua, mas também nossa. Foi por nós que Ele se entregou, morreu e ressurgiu (Rom V – 9; IV-25).
É justo, pois, que repetidas vezes a Igreja jubilosa convide seus filhos à verdadeira alegria. Já temos de novo permissão para entrar no Paraíso e gozar de Deus eternamente. Mas se Cristo com seu sangue nos abriu a porta do céu, Ele quer que caminhemos até lá, que cumpramos em nós, como diz S. Paulo, o que faltou à sua paixão (Col. I-24). E à paixão de Cristo faltou apenas a colaboração nossa: a Fé, a Esperança e a Caridade. Crer, confiar e observar os mandamentos. E destas virtudes a maior é a caridade. Se, porém, ela sozinha não supre as condições anteriores, coopera eficazmente para sua consecução. A caridade ocupa as passagens mais vivas, humanas e divinas da Bíblia. O amor ao próximo será a moeda com que um dia Cristo reconhecerá em nós filhos adotivos de Deus, irmãos e co-herdeiros seus: “Vinde benditos de meu Pai...pois tive fome e me destes de comer, estava sedento e me destes de beber, estava nu e me vestistes, doente e me visitastes.” E ante nossa admiração e desconcerto, Ele confirmará suas palavras: “Em verdade vos digo que todas as vezes que fizestes isso ao menor de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mat. XXVI-34-41). É aqui, meus pais, que eu queria chegar. Não podia desejar-lhes uma feliz Páscoa sem antes demonstrar que de tal são merecedores. “Sempre que o fizeste isto ao menor dos meus irmãos foi a mim que o fizestes.” Muitas vezes Cristo foi alimentado, vestido, tratado com bondade e carinho neste lar onde a providência divina me colocou. Mais de dezesseis pobrezinhos que sofriam, talvez fome e frio, foram pelo senhor e pela mamãe acolhidos e amparados. Jesus, que é fiel em suas promessas, há de conceder os meios para que um dia consigam a felicidade eterna. E então, ao ouvirem as consoladoras palavras – “Vinde, benditos de meu Pai” – verão realizados os votos de feliz e santa Páscoa, que agora lhes desejo de todo o coração.
O filho sempre grato. CYRO MONTEIRO.”

domingo, 28 de março de 2010

VERMEBILE E FITAFUSO


            Há algum tempo ouvi – da interpretação conjunta dos textos bíblicos “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança e “Amai o próximo como a ti mesmo” - a seguinte conclusão: “Deus nos fez  semelhantes a Ele e, próximos uns dos outros.
            Antonio Carlos Santini escreveu interessante artigo intitulado “Admirar o próximo” – Jornal O Lutador – 1º a 10 de janeiro 2010 – onde faz-nos perceber o quanto é difícil valorizar o irmão que está ao nosso lado, o “próximo mais próximo”. Preferimos admirar o “próximo mais longe”. Ele diz que: “Exatamente por serem distantes, só vemos a aura luminosa que a propaganda nos transmite ao seu respeito. Mesmo quando se revestem de graves fragilidades [...] fechamos os olhos para os seus vícios e defeitos para simplesmente, ad-mirar... Já o nosso próximo... Pobre do nosso próximo.”.
            “Cartas de um diabo a seu aprendiz”, de C.S. Lewis, da Editora Martins Fontes. O autor imagina as missivas expedidas por um diabo adulto, Fitafuso, a seu sobrinho, Vermebile, ainda um aprendiz na “arte” de tentar e desviar o homem do “Inimigo”. Entenda-se, aqui e onde quer que seja, Deus, por inimigo dos demônios.
            Fitafuso vê o homem como seu “paciente” – como se a bondade, o amor e a fé fossem terríveis doenças a serem curadas – e, também, o “humano” como um ser composto de círculos concêntricos.
            Pois bem. Para corroborar o que disse Santini e reafirmar que Deus nos fez próximos para, sim,  podermos nos amar e nos ajudar, transcrevo abaixo a técnica diabólica ensinada por Fitafuso – o tio diabo - ao inexperiente e atrapalhado Vermebile, para afastar-nos do que realmente interessa:

“O que quer que você faça, sempre haverá alguma benevolência, assim como alguma animosidade, na alma do seu paciente. O melhor a fazer é voltar a animosidade para os semelhantes mais próximos, aqueles que ele encontra todos os dias, e voltar a benevolência para um círculo mais distante, para as pessoas que ele não conhece. Desse modo, a animosidade torna-se completamente real e a benevolência, em grande medida, imaginária. Não há nenhuma vantagem em inflamar o ódio que ele sente pelos alemães se ao mesmo tempo o pernicioso hábito da caridade cresce entre ele e a mãe, o chefe ou o homem que ele encontra no trem. Imagine seu homem como uma série de círculos concêntricos, sendo que o central é a sua vontade, o seguinte o seu intelecto e o exterior a sua fantasia. Não adianta alimentar a esperança de eliminar de todos os círculos tudo aquilo que lembre remotamente o Inimigo (Deus), mas você deve continuar jogando para cada vez mais longe do centro todas as virtudes, até que finalmente fiquem localizadas no círculo da fantasia, e todas as características desejáveis fiquem no círculo da Vontade. Somente quando alcançam a Vontade, e lá se materializam como hábitos, é que as virtudes são fatais para nós.”

            Quem diria, hein?! Não, amigo leitor, o Inferno não é passar a eternidade procurando uma vaga para estacionar no Centro; ou tentando abrir saquinhos plásticos de supermercados. Não. E, não somente com rabos e chifres deveriam ser representados os demônios. Caberia acrescentar um belo terno italiano, sapatos alemães, charuto cubano à boca, óculos pince-nez e, ao fundo, diplomas de graduação, pós-graduação, Mestrado e Doutorado em comportamento humano.
Grande abraço,


Saulo Soares.