quinta-feira, 10 de novembro de 2011
PIRAHY, 03 DE SETEMBRO
sábado, 17 de setembro de 2011
O HOMEM QUE NÃO DAVA BOM DIA

Lúcio de Mendonça. Fazíamos fila para entrar. Cantávamos hinos. Bandeira hasteada. Desse tempo muitas saudades e, hoje em especial, uma lembrança musical: “Bom dia nada custa ao nosso coração, que bom fazer feliz o nosso irmão! Por Deus se deve amar, amar sem distinção! Alô, bom dia, irmão!” Corrijam-me os contemporâneos a letra da canção. Pois bem. Li uma pequena estória com o seguinte título: “Você age ou reage?” Fala de alguém que sempre agradecia ao jornaleiro e este, impassível, não respondia. Questionado por que continuava a ser educado, respondeu: “Por que não? Por que eu iria deixar que fosse ele quem decidisse como eu devo agir?”.
Eis a chave: agir ou reagir? A maioria de nós reage. E, também na maioria das vezes, desproporcionalmente à ação.
Mas porque tudo isso? Bem, assim como o personagem da estória, havia alguém a quem eu sempre sorria, cumprimentava, dava bom dia e... nada.
Aquilo me incomodava sobremaneira: o que devo ter feito para que aquela pessoa fosse assim comigo? Eu sou muito distraído. Santo Deus! E, de sobra, não enxergo muito bem. Em algum momento, com certeza, de alguma forma eu a ofendi.
Coincidentemente, encontrei-me com ela num elevador e – num “descuido de sua parte” - entendi por que ela não me sorria: seus dentes, ou o que restaram deles. O meu comportamento exigia dela um sorriso que, creio, ela até gostaria de dar, mas que lhe causava constrangimento, suponho.
Como somos inaptos para julgamento! Objetivamente, sob a ótica da Lei, é preciso o julgamento – ainda que este também seja passível de erros. Afinal, faz parte da Justiça absolver, condenar. Entretanto, falo desses “julgamentos subjetivos”, pessoais, que exercemos diariamente sobre os outros e quase nunca sobre nós mesmos. É o que nos fala Jesus: “... com a mesma medida que julgardes sereis julgados... não julgueis para não serdes julgados...”. E nos exorta, aponta-nos um caminho: “... Sede misericordiosos...”.
O homem que não dava bom dia não era avaro de gentilezas, não, creio. Talvez até as tivesse de sobra, abundantemente e as desejasse compartilhar com muitos. Porém...
Atendi esses dias uma senhora que, igualmente, “não dava bom dia”. Lembrei-me das “cáries” de nossa alma. Ela ia falando e eu tentando imaginá-la como uma criança triste que a vida, por um desses motivos mais tristes ainda, roubou-lhe a capacidade de “dar bom dia”, de cantar aquela canção. Imaginei-a na fila do Lúcio de Mendonça, de blusa branca, saia azul marinho, bolso com o brasão do Estado do Rio de Janeiro, balançando as tranças ao ritmo da bandeira acariciada pelo vento, cantarolando. De repente, olha para mim, sorri e diz: bom dia. Diz aquela música na simplicidade dos seus versos: “e a gente, sem saber como e porquê, se sente feliz e sai a cantar uma alegre canção!”.
Grande abraço.
NUVENS DE UM SEGUNDO

Atirava pedras na paineira
Pra fazer nuvens de um segundo.
E podia assim passar a vida inteira:
Atirando pedras na paineira
E pouco ligando pro mundo.
Mas o mundo devolveu as pedras que atirei.
A paineira? Já morreu!
E o menino, que era um rei, já não passa de um plebeu.
Não gosto de poesia assim,
Rimando desse jeito,
Atirava pedras na paineira
E acertava, em cheio, o meu peito.
domingo, 17 de julho de 2011
LIBERDADE?

“A liberdade é, antes de tudo, a liberdade de quem discorda de nós.” Rosa de Luxemburgo. De fato, o quanto nos aprisiona aceitar somente quem tem pensamentos iguais aos nossos. O quanto nos limita. Ter como “inimigo” quem apenas... discorda ou pensa diferente. Não nos odeia, nem trama planos contra nós, apenas ...discorda.
Entretanto, há liberdade e Liberdade. “A liberdade do lobo não pode justificar o extermínio dos cordeiros.” Isaiah Berlin. Ou seja, a liberdade, por si só, não nos diz muito se a ela não estiverem associados valores como Justiça, Amor, Verdade e Serviço. “Libertos para Servir”. Parece um paradoxo, mas é a mais pura verdade. A liberdade para o “mal” não é liberdade. João Paulo II, em Fides et Ratio, nos diz: “[...] Em outras palavras, a liberdade não se realiza nas opções contra Deus. Na verdade como poderia ser considerado um uso autêntico da liberdade, a recusa de se abrir àquilo que permite a realização de si mesmo?” E quanto o “outro” e o “serviço” nos realizam...
Por fim, um poema. Paul Eluard:
Nos meus cadernos de escola
Nas carteiras e nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo o teu nome
Em toda página lida
Em toda página em branco
Pedra papel sangue ou cinza
Escrevo o teu nome
Na minha porta de entrada
Nos objetos familiares
Nos ondas de fogo lento
Escrevo o teu nome
Em toda carne cedida
Na fronte de meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome
E ao poder de uma palavra
Reconheço minha vida
Nasci para conhecer-te
E chamar-te
Liberdade
terça-feira, 5 de julho de 2011
O QUE PENSEI PELA MANHÃ

Gratidão. Como é importante sermos gratos e como, invariavelmente, amigos, esquecemos de sê-lo. Dizem que os muçulmanos têm para a palavra “ser humano” a tradução: “aquele que se esquece”. E para Deus: “Aquele que se lembra”. Por essa razão, eles, variadas vezes ao longo dos seus dias, voltam-se para a cidade sagrada de Meca, para simplesmente lembrar-se Dele.
Recordo-me de Jesus. Continuamente dando graças ao Pai. A propósito: Eucaristia significa “ação de graças”, agradecer. Antes de realizar o milagre da multiplicação dos pães – assim como na ceia derradeira – Ele eleva os dons e... agradece ao Pai. Daí então se segue o milagre. O milagre é sucedâneo ao agradecimento.
Já nos demos conta de quantos “milagres” podemos realizar com pequenos gestos de gratidão? O quanto de bondade, de paz e harmonia podemos “multiplicar” em nossos relacionamentos, no nosso ambiente familiar e de trabalho?
Não, não sou daqueles que pretendem desmistificar os milagres de Jesus, de fazer reducionismos e dar outras versões. O que Ele fez foi, de fato, um milagre. Ponto. Sem duplas interpretações. O que pretendo dizer é: quantos ensinamentos podemos retirar dos milagres por Ele realizados. O mínimo agradecido pode multiplicar-se e tornar-se o “máximo”; pode a muitos “alimentar” com o pão da esperança e do bom convívio.
O que pensei pela manhã ficou comigo o dia inteiro. Multiplicou-se. Agradecer é reconhecer, no favor e gratuidade do outro, o próprio outro que se oferece. Agradecer é tornar agradável o ar que se respira em comum.
Agradecimentos e, em contraparte, reclamações. Murmuramos exageradamente... Sei disso; também sou assim. Basta um pequeno tropeço, uma mínima contrariedade para deixarmos claro nosso descontentamento. Esquecemos, rapidamente, a “montanha” de benefícios recebidos e os depositamos diante de uma “pedrinha” de aborrecimentos. Esquecemos. Parece termos uma espécie de “memória seletiva”. Apta e pronta para recordar o mal, porém frágil e débil para a lembrança do bem recebido. Esmaecida para a gratidão e em vivas tintas para sentimentos como a vingança e a falta de perdão.
Bela é a oração de Santo Inácio, que ora transcrevo: “Toma, Senhor, e recebe toda a minha liberdade e a minha memória também. O meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo Tu me deste com amor. Todos os dons que me deste com gratidão Te devolvo. Dispõe deles, Senhor, segundo a Tua vontade. Dá-me somente o Teu amor, tua graça. Isso me basta, nada mais quero pedir”.
O que pensei pela manhã, da semana passada, ficou comigo até o presente momento. Como um trigo que se planta, colhe, tritura, amassa, fermenta, coze e se transforma em pão. Graças a Deus!
Obrigado a todos vocês que agora me lêem e tem lido ao longo desses anos. Sou-lhes muito grato, de coração.
Grande abraço.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
SEGURANÇA E PAZ

Não são a mesma coisa. A paz vai além. O Senador Cristovam Buarque, no O Globo de 23 de abril, em “Além da Segurança”, afirma: “Quando ocorre um crime como o de Realengo, a busca pela segurança prevalece sobre a idéia da paz. Mesmo para garantir a segurança imediata é preciso se ter a perspectiva da paz no médio e longo prazo.”
A palavra para a paz em hebraico é Shalom. Como nos recorda Santini em Os quatro caminhos - página 46 – Editora O Lutador - ela é grafada por três consoantes: Shin, Lamed, Mem. Shin é simbolizada por uma labareda. Lamed, uma balança. Mem, um odre d’água. Fácil deduzir que simbolicamente, a paz é o equilíbrio (balança), entre o fogo (labareda) e a água (jarro). É de Santo Agostinho a conhecida frase: “A virtude está no meio”. Os budistas, por sua vez, conhecem o “caminho do meio”.
E o que isso quer dizer: que devemos buscar o equilíbrio em nossas relações. O quanto de nossos pequenos atos cotidianos contribuem para a formação de um comportamento que, muitas vezes, ultrapassa o nível de uma atitude pessoal e auxilia na sedimentação de um padrão social questionável?
De um grande amigo advogado escutei: “O objetivo da Justiça é a Paz Social.” Ora, deveria também ser um dos nossos. Muito mais do que um carro zero; zero violência. Entretanto, é preciso uma cultura, uma “educação para a paz”. Saint-Exupéry: “Se você quer construir um navio, ensine as pessoas o anseio pelo mar.”
Se desejamos a paz, devemos cultivá-la, ensiná-la nos lares, nas escolas, no trabalho, no trânsito, nas filas, enfim, na vida. Gosto muito da frase de João Paulo II: “Não há paz sem justiça, não há justiça sem perdão.” Perdoar, perdoar-se, pedir perdão. Passos sem os quais não caminharemos em direção à paz.
Para finalizar: é conhecida a passagem bíblica da parábola do joio e do trigo. De como devemos esperar crescerem juntos para depois separá-los e a eles dar destinos diferentes. Mas como diferenciá-los? Dizem que o joio se mantém ereto, altivo. Já o trigo, em virtude dos frutos que produz, curva-se, pendendo numa postura de humildade, pelo peso das sementes que carrega, num implícito reconhecimento da bondade do Criador. Altivez, arrogância e infertilidade se diferenciam substancialmente da humildade, dos bons frutos, da doação e do serviço.
Há um mundo a ser modificado. Um “assim na Terra como no Céu” a ser realizado. Mãos à obra!
Grande abraço.
domingo, 13 de março de 2011
ESCOLHAS E RENÚNCIAS

Sabedoria deriva, etimologicamente, de sabor. Sabe aquele que sente o sabor. E é aqui que eu quero chegar. Quantos de nós conhecemos a Deus apenas pelos livros, culturalmente, e quantos conhecemos a Ele porque O saboreamos? “Provai e vede quão suave é o Senhor”, diz a Palavra. Vejo tanta gente pregando um deus conceitual, feito de capítulos e versículos decorados, um deus “feito à imagem e semelhança” de quem o propõe. Invariavelmente um deus vingativo e rancoroso, um deus sectário e pouco misericordioso, um “deus” que não é “Deus”.
John Lennon, em sua música God, diz que “Deus é um conceito pelo qual medimos a nossa dor.” Deus não é um conceito, John, mas, de fato, queremos fazer Dele isso: uma idéia, um abstrato. Queremos transformar Alguém em algo e, assim, manipulá-Lo à guisa dos nossos frágeis e inconstantes nervos. Se estou triste, Deus para mim é isso; se estou alegre, Deus para mim é aquilo; se estou nessa igreja, se estou naquela...
Deus não está em “várias versões” – light ou diet - numa prateleira, à venda, conforme os impulsos de nosso consumismo sentimental. Não. Deus é Deus. O mesmo ontem, hoje e sempre.
Interessante o fato de Jesus Ressuscitado manifestar-se com as marcas do Crucificado. O que foi posto numa cruz é o mesmo que ressuscitou. Não é outra pessoa. Não dá para aceitar o Ressuscitado sem também o Crucificado e vice-versa. Cruz e Glória se fundem na pessoa do Cristo. Humanidade e Divindade.
É preciso escolher a Deus, escolher o Bem, integralmente, sem subterfúgios. E essa é a grande escolha de nossas existências.
Escolhas e renúncias. Assim é tecida a trama de nossas vidas.
Grande abraço,
Saulo Soares
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
POR QUEM DOBRAM OS SINOS?

A linha do horizonte é a linha da visão, do que podemos enxergar. Não se trata, notem, de uma linha linha vertical, mas, horizontal, igualitária. De fato, a morte nos iguala e põe por terra as diferenças num grande abraço. A cruz também traz esse sentido: o encontro de uma linha fincada na terra e apontando para o céu na vertical e de outra, que se estende no horizonte, como braços que a todos quer enlaçar...
Uma bela e antiga homilia sobre o Sábado Santo diz que, "descendo à mansão dos mortos", Jesus procura por Adão, estende-lhe a mão e lhe diz:"...Eu sou o teu Deus...Levanta-te, pois não te criei para que fiques prisioneiro... Eu sou a Vida dos mortos". Que Deus amoroso! Fomos feitos para estarmos em pé, não curvados. Livres e para a Vida que ele nos reservou em seu Amor que ressuscita!
Gustavo Corção, em Lições de Abismo, recorda-nos a caráter inevitável da morte. Entretanto, diz ele, quando ela chega a nós ou a um dos nossos nos parece um absurdo. E por que? Porque em nós, penso – mesmo nos descrentes! - há um latente germe de eternidade a sussurrar: "Sois de Deus, sois do Eterno!"
A morte nos faz "lembrar" o que está por vir: a nossa partida. Torna-nos mais conscientes da nossa humanidade e deveria fazer de nós mais solidários e urgentes no bem. No samba "Quando eu me chamar saudade", de Nelson Cavaquinho, podemos escutar: "Sei que amanhã quando eu morrer, os meus amigos vão dizer que eu tinha um bom coração. Alguns até hão de chorar e querer me homenagear fazendo de ouro um violão... Mas depois que o tempo passar, sei que ninguém vai se lembrar que eu fui embora. Por isso é que eu penso assim: se alguém quiser fazer por mim, que faça agora!" E termina: "Me dê as flores em vida, o carinho, a mão amiga, para aliviar meus ais! Depois que eu me chamar saudade, não preciso de vaidades, quero preces e nada mais!"
Com certeza você viu partir pessoas amadas. Estão em Deus, creia! Lembro-me o que me disse um jovem, citando uma canção: "As flores de plástico não morrem..." Retruquei: "Não, as flores de plástico não vivem..." Não somos de plástico, nem descartáveis, temos valor, vivemos!
Cada um de nós é uma obra única, irrepetível, rara, de incalculável valor! É o que nos diz um trecho de "Meditações XVII", do inglês John Donne:"Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra. Se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída... a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti”.
Por fim, João 12,24: "Se um grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto."
Sigamos em frente! Deus está ao nosso lado!
Grande abraço,
Saulo Soares
Dedico ao Dr. Fernando Arantes Leal estas linhas. Mais do que um profissional exemplar, um ser humano formidável, um amigo do qual sentiremos muitas saudades.
sábado, 30 de outubro de 2010
DESESPERAR, JAMAIS!

quarta-feira, 20 de outubro de 2010
A COMIDA DOS PORCOS

Quanto mais a sociedade se afasta de Deus, que é o Absoluto, mais ela relativiza suas atitudes, seus comportamentos. Não crer em Deus, na prática, é não acreditar que somos feitos à Sua imagem e semelhança. É, portanto, perder ou recusar a dignidade de “filhos” de Deus. E, crer em Cristo, significa crer que nossa dignidade, nosso valor é tamanho que custou o sangue D’Ele, o Filho – com “F” maiúsculo – de Deus. Afinal, somos “filhos” no “Filho”. Ou seja, não há nada que valorize tanto o Homem, quanto a fé. A partir desta ótica, conscientes de nossa dignidade e filiação divina, entendemos o outro como irmão, filho do mesmo Pai, do Pai Nosso. Concebemos o ser humano e, em especial os mais frágeis – como os bebês – não como um “amontoado de células”, mas como nossos irmãos pequeninos e mais pobres. Esta, também é, de fato, além de uma opção pela Vida, uma “opção preferencial pelos pobres”.
É conhecida a passagem bíblica do Filho Pródigo que pede sua herança e, requerer a herança é, de certa forma, declarar morto o pai – pois herança se reparte após a morte – e sai pelo mundo, gasta tudo, até comer a “comida dos porcos”.
Nossa sociedade, sob certo aspecto, assemelha-se a esse filho em sua prodigalidade. Gastou, declarou Deus como morto, consumiu o valor recebido do Pai, a dignidade que Dele recebeu e alimenta-se da comida dos porcos, ou o que é mais triste, serve de espetáculo, comendo e vomitando via satélite minhocas, baratas, vermes... em troca de dinheiro.
Grande abraço,
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
O HUMANO DESCARTÁVEL

Mas porque digo isso? Às vezes, engolidos pela onda veloz da modernidade e do avanço tecnológico, pelos apelos do Marketing (exímio conhecedor da concupiscência humana) e pela sede voraz do Capital, descartamos o que ainda de bom e proveitoso há. Vivemos na era do descartável.
Mas quero ir adiante. O programa Café Filosófico, da TV Cultura, trouxe como tema “A volta do sagrado: superando a crise” – com a participação, dentre outros, do Rabino Nilton Bonder e do jornalista Eugenio Bucci. O Rabino trata do seu livro “A alma imoral”. De suas palavras – além da interessante “inversão” dos conceitos de corpo e alma - guardei a afirmação de que os judeus, espalhados pelo mundo, para se manterem coesos – como no espaço era impossível pela dispersão – utilizaram-se do tempo. Disse ele: ...”quando as três primeiras estrelas surgiam no céu, anunciando a chegada Sábado, os judeus, pelo mundo afora, uniam-se." Não tinham o espaço em comum, mas tinham o tempo. Tinham a alma.
O jornalista Eugenio Bucci falou sobre o “Humano descartável”. Começou pelo filme Matrix – ficção onde o ser humano serve como de fonte de energia para as máquinas – passou por Darwin e o Evolucionismo (destacando que a Teoria da Evolução seria uma justificativa para os moldes do Mercado Capitalista “`Predador”), por Richard Dawkins e a evolução do gene (seríamos apenas meios de transporte para os tais genes que, comandariam a “verdadeira” evolução e que, por fim, chegando onde pretendem, descartariam o humano) até a perpetuação do Capital e o fim do homem como hoje se entende. Complicado, não?
Pois é. Mas, de fato, cabe-nos uma pergunta: quanto o humano, hoje em dia, é descartável? Quanto descartamos da humanidade nos relacionamentos e nos valemos da virtualidade, da impessoalidade? Diferentemente dos judeus na Diáspora, perdemos o espaço e o tempo. A corporeidade e a alma. Não percebemos que, no descarte do “outro”, descartamos a nós mesmos, descartamos o “homem”. Não creio que a isso possa se chamar de “evolução”.
Se a Revolução Industrial tirou parte do trabalho dos músculos e o transferiu para as máquinas, a nova sociedade do conhecimento pretender fazer o mesmo com o labor do cérebro. Se o resultado disso fosse uma sociedade mais justa... Mas, não. Mais adiante – com corpo e mente “mecanizados” – o que mais será? As emoções? Os sentimentos? A alma?
Precisamos redescobrir nossa humanidade. Não somos “periféricos” de um “sistema”, “acessórios” de um “principal”. Somos homens e – literalmente – graças à Deus o somos!
Grande abraço,
domingo, 18 de julho de 2010
A CALMA

Nesses nossos tempos de fast-food, de velocidade e pressa, os dias passam, os meses passam e nós... passamos. Este ritmo acelerado demais não nos permite viver com intensidade, apenas com superficialidade. Não há mais tempo para a subjetividade, somente para a objetividade. E com tudo isso nossos valores foram mudando, nossos relacionamentos, nossas expectativas, nossa forma de ver o mundo.
É como numa viagem de trem. Se fixarmos os olhos num ponto próximo a nós, tudo passa tão ligeiro que não conseguimos distinguir a paisagem. Mas se colocarmos nosso olhar mais adiante, num horizonte mais amplo, a imagem se fixa e daí podemos enxergar mais claramente.
Quando se vive numa velocidade e ritmos tais, qualquer erro, ou desvio na rota, pode ser fatal para o desfecho final. À grandes velocidades pequenos movimentos fazem enorme diferença.
Estou para escrever sobre este assunto há tempos. Mas urgência dos dias me impediu. Não que eu considere que tudo deva ser moroso, não. Aquilo que, de alguma forma, possa facilitar a vida do homem, sem que traga más conseqüências maiores do que os seus benefícios, é válido. Falo aqui do que realmente importa. Li outro dia uma frase que achei interessante: “A vida exige mais compreensão do que conhecimento.” É disso que falo.
Sêneca me pareceu ter essa compreensão. Uma de suas frases de “Da vida feliz” (De vita beata) diz o seguinte: “Realmente não é fácil atingir a felicidade, porque, se alguém desviado do caminho se precipita para alcançá-la, fica sempre mais afastado da felicidade. Correndo em sentido contrário, a nossa própria pressa torna-se a causa de um contínuo distanciamento.”
O amor exige calma e paciência. A vida é para ser saboreada, contemplada. E não engolida.
Grande abraço,
GRANDE ENCONTRO DE SARAMAGO

Bom, ele morreu. Sabemos que ele se dizia ateu. Porém, não havia lido também esta frase atribuída a ele: “Não sou um ateu total. Todos os dias procuro encontrar um sinal de Deus, mas infelizmente não encontro.” O que traz essa frase de diferente e animador: o “infelizmente”. Dizer “infelizmente” denota que gostaríamos que houvesse um outro desfecho que não esse. Entristecer-se por não encontrar um sinal de Deus, demonstra o real desejo de encontrá-lo. Santo Agostinho também tem uma frase: “Nada estará perdido enquanto estivermos em busca.” Isso vale para Saramago e sua busca diária.
Fui adiante na leitura das frases do autor e deparei-me com algumas bastantes interessantes. Refletem um pouco quem era Saramago, quem era “o homem atrás daqueles óculos”. Eis aqui algumas delas:
“Cada dia traz sua alegria e sua pena, e também sua lição proveitosa.”
O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são definitivas."
“Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos.”
“Há situações na vida em que já tanto nos dá perder por dez como perder por cem, o que queremos é conhecer rapidamente a última soma do desastre, para depois, se tal for possível, não voltarmos a pensar mais no assunto.”
“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é só um dia a mais.”
Há uns dias atrás foi o último para Saramago aqui conosco. Mas talvez tenha sido também o primeiro, novo e diferente dia que para ele nasceu. Talvez a sua busca tenha encontrado um fim, o seu cansaço, um descanso; e suas dúvidas, respostas. Talvez tenha chegado para ele a hora da descoberta que sabia muito mais do que julgava.
Grande abraço,
O CEGO DE JERICÓ E IVETE SANGALO

Barra do Piraí – Santanésia é um trecho rápido. Demora-se mais esperando o ônibus no ponto - e como! - do que efetivamente no trajeto. Duas senhoras evangélicas conversavam sobre a Ivete Sangalo: Você viu – disse uma – a Ivete incorporando espírito em pleno palco? Não?! Coloca lá no youtube: Ivete endemoninhada e você vai ver. Pensei cá comigo: Tempos atrás quem poderia imaginar um diálogo desses? E começaram a falar sobre o Apocalipse, chips implantados, catástrofes. Enfim, o mundo tinha acabado antes mesmo de chegarmos ao fim da viagem. Mas, isso foi na ida.
Na volta um cego entra no ônibus juntamente com sua acompanhante e começa um discurso eloqüente, capaz de deixar corado muito orador de carteirinha: “Uma excelente boa tarde, senhoras e senhores! Permita-me uma pequena interrupção nesta breve viagem...”. E assim foi - enquanto a acompanhante distribuía uns cartõezinhos xerocados - o seu discurso pedindo auxílio evocando as dificuldades da sua situação. De repente – como diria o Poetinha – não mais que de repente, saca de dentro de sua roupa uma... latinha de Pomarola segura por um fio amarrado por pequenos nós em furinhos nas laterais. Tudo cronometrado. Moedas tilintaram. Lá se foram as minhas também.
Logo correlacionei aquele cego do ônibus com o bíblico de Jericó. “Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!” Que queres que eu te faça?", perguntou o Senhor. Ora, alguns podem argumentar criticando obviedade: “Que pergunta?! É claro que o cego quer ver!” Será? Não creio que o Senhor tenha sido bobo ou, como querem alguns, cômico ao fazer esta pergunta. De fato, muitas vezes, nos agarramos às nossas limitações, às nossas “cegueiras” e fazemos delas uma forma de obtermos um certo carinho, uma especial atenção. Por isso, procede, sim, perguntar: Queres, de fato, ver? Ou preferes a escuridão, agarrado às suas muletas e apoios?
Conta-se que um mineirinho, no tempo dos réis, todos os dias passava por uma venda e, lá os bebedores colocavam diversas moedas na mesa. A menor tinha maior valor e a maior, menor valor. Chamavam o mineirinho e pediam para ele escolher. Ele sempre escolhia a maior (de menor valor). E todos riam aos baldes. Um dia, um cidadão virou-se para o mineirinho e disse: “Você não sabe que a moeda menor tem maior valor? Por que não a escolhe?” Ele respondeu: “Sei, sim, senhor. Mas, no dia em que eu escolhê-la, acaba a brincadeira e eu perco esse dinheirinho todos os dias.” Simples.
Temos que ter caridade. Sem dúvida! Temos também que lutar para que todos tenham dignidade. Emprego, educação, oportunidades, abrem os olhos da mente... e do coração.
Grande abraço,
segunda-feira, 7 de junho de 2010
POSE DE BANDIDO

Em artigo publicado na Revista de Domingo, de O Globo, intitulado “Pose de bandido”, Martha Medeiros chama nossa atenção sobre a atração que a “estética das gangues” exerce sobre a juventude, de um modo geral. Diz ela: “Temos sido vítimas não apenas de marginais profissionais, com Phd em maldade, mas também de garotos mimados que aceleram seus carrões sem medir conseqüências, que tomam decisões estúpidas por pura falta de orientação, que se metem em encrencas pesadas porque, se saltarem fora, temem ser considerados fracos, babacas. Não percebem que não há babaquice maior que fazer pose de bandido. [...] Ninguém mais quer ser da turma dos mocinhos. Por quê? O pessoal do bem anda precisando de uma boa assessoria de marketing.” Eu incluiria no texto: “filhinhos de papai” que espancam domésticas em pontos de ônibus, queimam índios e tantas tristezas mais ...
Como estamos criando nossos filhos? Para uma pose de mocinho ou de bandido? Para um belo quadro na parede ou para uma triste manchete de jornal?
Rafael Cifuentes – no caderno “Grandeza de coração”, da Ed. Quadrante – transcreve a seguinte carta de um delinqüente juvenil alemão aos seus pais e a todos os pais. Inclusive nós, pais Piraienses. Diz o seguinte: Porque vocês são fracos no bem, deram-nos o nome de fortes no mal... Com seu “não” vacilante, disseram-nos “sim”, a fim de pouparem seus frágeis nervos. E a isso deram nome de “amor”. Porque são fracos, compraram de nós o seu sossego. Quando éramos pequenos, davam-nos dinheiro para irmos ao cinema ou comprarmos sorvete. Com isso, estavam prestando um serviço, não a nós, mas à sua própria comodidade, porque são fracos. Fracos no amor, fracos na paciência, fracos na esperança, fracos na fé. Estaríamos dispostos a crer em Deus, no Deus infinitamente bom e forte, que tudo compreendesse e de nós esperasse que fôssemos bons, mas você não nos mostraram um só homem que fosse bom por crer em Deus... Em vez de nos ameaçarem com bastões de borracha, coloquem-nos frente a frente com homens de verdade, que acreditem em Deus e que nos mostrem o caminho certo... Porque vocês são fracos no bem, nós somos fortes no mal.”
Não dá para se colocar todo o peso desta cruz somente sobre os ombros dos pais. Mas parte, sim. Sei que é difícil e que muitas coisas fogem ao nosso controle e atenção. Há também, obviamente, a parcela da sociedade, do Estado, do restante do “pessoal do bem”, etc.
Todo pecado é uma busca desordenada pela felicidade, não é mesmo? O filósofo Kierkegaard diz que o indispensável é o Absoluto. Talvez estejamos preocupados em fornecer aos nossos filhos bens e benefícios importantes, mas relativos, não absolutos. O Bem, e tudo o que dele decorre, este sim é o indispensável Absoluto.
Grande abraço,
quarta-feira, 19 de maio de 2010
FUSCA NÃO ANDA, DESFILA.

Essa era a frase em adesivo no vidro traseiro de um simpático fusquinha à minha frente. Conta o Senador Cristovam Buarque que, sob um calor de “derreter Catedral”: " [...]há alguns anos, em um sinal de trânsito, às duas da tarde, em Manaus, o motorista mostrou-me o fusquinha ao lado e disse: “Ele fecha os vidros para dar a aparência que seu carro tem ar-condicionado. Na hora percebi que aquele era um retrato do Brasil. Não importava sentir calor, mas sim aparentar ter ar-condicionado.”
E arremata: “[...] aprendemos a esconder a as aparências do que não interessa ver. Felizmente, descobrimos a podridão na superfície da política, que aparece graças às denúncias da mídia, mas não vemos a ferrugem na engrenagem da sociedade inteira, porque nem a mídia, nem todos nós queremos ver. Somos um povo não só de aparências, mas de aparências escolhidas.”
Quanto de balela há no marketing político? Em tantas alardeadas “realizações”? Quanto de aparência? Quanto de tudo isso, como diz Caetano, não é “proveito, é pura fama” ou é somente para inglês ver? Recentemente acompanhamos a briga pelos royalties do petróleo. O Senador Buarque fez, também, com justiça, uma defesa do Rio. Concordo plenamente com os direitos exigidos por nosso Estado. Porém, ele dá início a uma reflexão muito interessante: argumenta que “mesmo após décadas recebendo royalties, a quase totalidade dessas cidades têm IDH – Índice de Desenvolvimento Humano - entre o 745º e o 4178º no ranking nacional. Isso porque parte desses recursos é usada em gastos correntes, não em investimentos em longo prazo.” E, faz um alerta: “E quando o petróleo acabar, ou quando o preço despencar por força da crise ecológica ou do uso de fontes renováveis de energia? Cita, também, a “maldição do petróleo” que atingiu países que consomem suas reservas e gastam seus recursos visando somente o presente. Imediatistas como o personagem da parábola do filho pródigo.
Ora, não basta ter o recurso. Não obstante existam leis que determinem sua utilização, é preciso administrá-lo e aplicá-lo corretamente ou corremos o risco de andarmos na sauna de um fusquinha de vidros fechados mas aparentar estar sob o frescor do ar-condicionado. Ou, ainda, o que é pior, continuaremos a ver despencar Morros do Bumba por aí, tanto pela falta de investimento, quanto como fruto de uma política anã que incentiva a troca de votos por milheiros de tijolos e sacos de cimento, bem como a cessão de espaços e vista grossa para construções em área de risco.
Na coluna do Góis, no O GLOBO, há época do calor das discussões sobre o pré-sal, saiu a seguinte nota: “Sermão outro dia do padre Marcos Belisário, da Igreja dos Santos Anjos, no Leblon:
- Alguém sabe por onde anda o dinheiro dos royalties do Rio? Pelo menos, a Emenda Ibsen serviu para levantar esta lebre. Onde foram aplicados estes R$ 7 bilhões anuais?
É. Faz sentido.
terça-feira, 27 de abril de 2010
AOS PÉS DA MINHA ÁFRICA

Mandela, de fato, é um grande homem. Um dos maiores que a nossa geração teve a oportunidade de conhecer. Após sofrer e ver seu povo sofrer tantas injustiças e violências, não se deixou levar pelo ódio e pela vingança. Ao contrário, uma das primeiras medidas do seu governo foi a Comissão Verdade e Reconciliação. Um tribunal moral, sem possibilidades de punição, onde testemunhos de diversas pessoas, de lados opostos, contribuíram para o nascimento de uma nova nação, onde a força da verdade se fez libertação, como no verso bíblico: “... e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!”
Tudo isso me fez lembrar outro poema, Aos pés da minha África, de Léopold S. Senghor. Diz o seguinte:
Aos pés da minha África,
Crucificada há quatrocentos anos,
Mas que ainda respira,
Deixa-me dizer-Te, Senhor,
A sua prece de paz e perdão.
Senhor Deus, perdoa a Europa branca!
Porque é preciso exatamente que Tu perdoes
Àqueles que caçaram meus filhos
Como a elefantes selvagens.
Porque é preciso exatamente que Tu esqueças
Aqueles que exportaram dez milhões de filhos
Nos leprosários de seus navios,
Que eliminaram duzentos milhões deles.
Senhor, o gelo de meus olhos se dissolve,
E eis que a serpente do ódio
Ergue a cabeça em meu coração,
Aquela serpente que eu julgava morta.
Mata-a, Senhor,
Porque eu devo prosseguir o meu caminho.
Somos todos irmãos, filhos de um mesmo Pai, de uma única raça: a raça humana.
Grande abraço,
terça-feira, 13 de abril de 2010
VINDE, BENDITOS DE MEU PAI!

Transcrevo, emocionado, a carta de meu pai aos seus, por ocasião da Páscoa de 1955, publicada no O NORTE FLUMINENSE, de Bom Jesus do Itabapoana.
“Mariana, Páscoa de 1955 – Queridos Papai e Mamãe – Salve Cristo Ressuscitado!
Não poderia eu permitir passasse esta festa cristã, tão significativa para nós, sem externar ao senhor e à mamãe os meus votos de santa e feliz Páscoa. A Páscoa é geralmente tomada como uma lembrança viva das vitórias de Cristo sobre as forças infernais. E deste pensamento surgem inúmeras conclusões que mexem profundamente com todo o nosso ser, com nossos sentimentos todos. Cristo venceu. Cristo ressuscitou.
Sua vitória, porém, não foi fácil. Antes, exigiu os mais ingentes sacrifícios, a mais imunda e negra das ingratidões, padecimentos tais, que tiveram fim numa cruz erguida entre vaias e apupos. Só a figura de Judas, indecisa e traidora, é suficiente para enegrecer todo este quadro, já por si mesmo tão escuro e repugnante. É bom notar que a vitória de Cristo não é uma vitória somente sua, mas também nossa. Foi por nós que Ele se entregou, morreu e ressurgiu (Rom V – 9; IV-25).
É justo, pois, que repetidas vezes a Igreja jubilosa convide seus filhos à verdadeira alegria. Já temos de novo permissão para entrar no Paraíso e gozar de Deus eternamente. Mas se Cristo com seu sangue nos abriu a porta do céu, Ele quer que caminhemos até lá, que cumpramos em nós, como diz S. Paulo, o que faltou à sua paixão (Col. I-24). E à paixão de Cristo faltou apenas a colaboração nossa: a Fé, a Esperança e a Caridade. Crer, confiar e observar os mandamentos. E destas virtudes a maior é a caridade. Se, porém, ela sozinha não supre as condições anteriores, coopera eficazmente para sua consecução. A caridade ocupa as passagens mais vivas, humanas e divinas da Bíblia. O amor ao próximo será a moeda com que um dia Cristo reconhecerá em nós filhos adotivos de Deus, irmãos e co-herdeiros seus: “Vinde benditos de meu Pai...pois tive fome e me destes de comer, estava sedento e me destes de beber, estava nu e me vestistes, doente e me visitastes.” E ante nossa admiração e desconcerto, Ele confirmará suas palavras: “Em verdade vos digo que todas as vezes que fizestes isso ao menor de meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mat. XXVI-34-41). É aqui, meus pais, que eu queria chegar. Não podia desejar-lhes uma feliz Páscoa sem antes demonstrar que de tal são merecedores. “Sempre que o fizeste isto ao menor dos meus irmãos foi a mim que o fizestes.” Muitas vezes Cristo foi alimentado, vestido, tratado com bondade e carinho neste lar onde a providência divina me colocou. Mais de dezesseis pobrezinhos que sofriam, talvez fome e frio, foram pelo senhor e pela mamãe acolhidos e amparados. Jesus, que é fiel em suas promessas, há de conceder os meios para que um dia consigam a felicidade eterna. E então, ao ouvirem as consoladoras palavras – “Vinde, benditos de meu Pai” – verão realizados os votos de feliz e santa Páscoa, que agora lhes desejo de todo o coração.
O filho sempre grato. CYRO MONTEIRO.”
domingo, 28 de março de 2010
VERMEBILE E FITAFUSO

MAIO

À beira daquela estrada,
Nasce nestes dias,
Um capim em tom grená.
Que na velocidade,
A paisagem oscilada
É feito uma miragem (pincelada)
Num deserto que não há!
Meados do mês de maio,
Na bela estrada, quem me dera ter você...
Ter assim: como um desmaio de primavera
Num outono que não se vê!
IRMÃOSDADAS

Irmãosdadas sonhamos,
Quisera irmãosdadas iremos,
Tão dados que nem saberemos
Distinguir a minha da sua mão.
Feito Irmão Sol, Irmã Lua, Irmã Luz,
Banhados no mesmo sangue,
Alegres no mesmo peito, pregados à mesma Cruz.
Irmãosdadas seguiremos,
Vez em quando distantes,
Vez em sempre amantes de um mesmo amor infindo.
Filhos de um mesmo ventre,
Flor, fruto, semente,
Rima, imã, irmã.
Irmãosdadas te amo,
Unidos feito siameses.
E, de tanto amor assim sentindo,
Como os dias, bebo os anos,
Respiro os meses.
terça-feira, 16 de março de 2010
A INVISIBILIDADE DO ÓBVIO

NEM POR UM MILHÃO

Dizem que um repórter, ao ver Madre Teresa cuidar das feridas de um mendigo, virou-se para ela e disse: Não faria isso nem por um milhão! Ao que ela, serenamente, respondeu: Nem eu. Magnífica resposta! Daquelas do tipo: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus; ou, ainda: quem não tiver pecado atire a primeira pedra. Emudece o interlocutor, põe um ponto final. Touché!
Fica claro que Madre Teresa não fazia aquilo por dinheiro. Era o amor que a movia. A moeda dos que amam é o amor, pois é ele quem dá valor aos atos. São Paulo nos recorda isto quando assevera: “Se não tivesse amor de nada valeria.”
Creio ter sido uma decisão acertada a escolha do tema “Economia e Vida”, e do lema: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.” (Mt, 6,24), para a Campanha da Fraternidade 2010. Interessante Jesus não colocar como opositor direto a Deus a figura do diabo e, sim, o dinheiro. A forma que Ele escolheu foi muito mais tangível, pontual. Não ficou na esfera etérea e cheia de nuvenzinhas e, sim, na crueza da realidade cotidiana, sem chances para outras interpretações.
Não se trata, aqui, de “demonizar” o Mercado, o dinheiro; embora eles, o consumismo insano e seus sinônimos comparsas, bem que o mereçam. Porém, “divinizá-lo”, nem pensar! Prestar a ele culto? Nunca. Supor que ele tudo resolverá é infantilidade. Que ele é justo: balela. Ele demonstrou-nos muito bem a sua ineficácia e fragilidade de seu modelo (especialmente durante a recente “crise financeira”), sua capacidade em sugar ao esgotamento os recursos naturais, sua incapacidade em repartir, sua extrema competência em poluir e destruir, a voracidade do seu lucro individualizado e de seu prejuízo socializado; sua predileção pelos os que detêm o capital, inversamente ao que se propõe no cristianismo.
Em I Tm 6,10 podemos ler: “... a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro.” Aqui há uma totalidade: todos os males têm como raiz o apego ao dinheiro e tudo o que ele representa, na ambição desmedida, no poder que confere. Por analogia: todo bem tem sua raiz no amor a Deus.
Havia um programa na televisão: Topa tudo por dinheiro. Não sei se ainda existe. Se não na telinha, está plenamente em voga no dia-a-dia, nos conchavos, nas meias e cuecas, nas bolsas de valores, no favorecimento de sentenças, no “Mercado”, nas “alianças”, na má política, nas propinas, nos escritórios.
Certo estava Belchior quando cantou em Paralelas: “... no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor.”
Quem questiona essa prática mercadológica agressiva, visando única e objetivamente o lucro a qualquer custo, sem se importar com o demais, com a justiça social, em detrimento da ética, recebe, em meio a risinhos contidos, a seguinte interrogação-exclamação:“Tem alguma freira aqui?!”. Infelizmente, não. A verdadeira freira estava em Calcutá cuidando das feridas de Jesus presente no pobre. Hoje está no céu. “A quem quereis servir?” (Cfe. Js, 24,15).
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
MANE NOBISCUM DOMINE

No Haiti, diversas cenas nos comoveram e, somente aqueles que trazem uma pedra no peito, não se emocionaram diante de tudo aquilo. Mane Nobiscum Domine: Permanece conosco, Senhor. Esta é a tradução. E Lucas completa: “... pois cai a tarde e do dia já declina” (cf. Lc 24,29). A tarde caiu e o dia declinou em espessas trevas no Haiti.
Em situações trágicas é natural vir à nossa mente algumas pontuais frases bíblicas, tais como: Onde está o teu Deus? Ou ainda: Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste? Estas, pinçadas assim, parecem dar razão e vitória à incredulidade, ao ateísmo e à desesperança. Parecem...
Luis Fernando Veríssimo escreveu uma interessante crônica comparando o “deus” de um religioso americano (que atribuiu a catástrofe Haitiana a um castigo dos Céus), ao Deus solidário de Zilda Arns, Deus esse que, como os seus filhos da Pastoral, acolhe as crianças: “... deixai vir a mim os pequeninos.” Mane Nobiscum Domine.
Quando vi na televisão a imagem da Catedral toda destruída e o Crucifixo em frente, íntegro, preservado, tomei-a para mim como um claro sinal da permanência de Deus a nos dizer: “ Eis que estou convosco todos os dias [...]” (Cf. Mt 28,20). Mane Nobiscum Domine. Ele permanece conosco.
Retomando o raciocínio inicial: como então, fazer, do sofrimento, sacrifício que salva? Derramando sobre toda dor o amor que se solidariza e se compadece. Mane Nobiscum Domine. O Deus, que em nós vive, fica conosco através de nós mesmos e de nosso amor pelos irmãos. Somente assim, encarnada, em vivas tintas, a religião encontra, entre os que aqui estamos, seu sentido maior. Dra. Zilda sabia deste “segredo”. Digo isso pois, outro momento que me impressionou foi, ao fim do Fantástico, ouvir Marília Pêra repetir as palavras do discurso de Zilda no Haiti. Tomo a liberdade de aqui as transcrever:
“Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos” significa trabalhar pela inclusão social, fruto da Justiça; significa não ter preconceitos, aplicar nossos melhores talentos em favor da vida plena, prioritariamente daqueles que mais necessitam. Somar esforços para alcançar os objetivos, servir com humildade e misericórdia, sem perder a própria identidade.
Cremos que essa transformação social exige um investimento máximo de esforços para o desenvolvimento integral das crianças. Este desenvolvimento começa quando a criança se encontra ainda no ventre sagrado da sua mãe. As crianças, quando estão bem cuidadas, são sementes de paz e esperança. Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças. Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe dos predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, devemos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los. Muito obrigada! Que Deus esteja com todos! Zilda Arns.
Grande abraço,
Saulo Soares.
sábado, 10 de outubro de 2009
O PIPOQUEIRO E A SANTA

Há algum tempo li uma crônica que se chamava exatamente “Por pouco”. Por pouco não fiz isso, não conquistei aquilo, não fui para tal lugar, não disse aquele “sim”...Enfim, uma ladainha de oportunidades perdidas... por pouco. Mas deixemos de lado, por ora, os “por pouco” e voltemos às pipocas.
Vira isopor, sem sal e sem sabor, o abraço que deixamos de dar nos pais, o perdão que não pedimos ou não concedemos, a palavra amiga e precisa a qual recusamos ouvir ou dizer. Vira isopor o “basta” que não demos diante de uma situação de humilhação e vilipêndio. Vira isopor o curso que deixamos de concluir, o novo idioma a aprender, a viagem a fazer. Vira isopor tudo isso e muito mais.
Originalmente, esta crônica se chamava “A alquimia da pipoca”. Claro, eu a tinha escrito sobre um outro aspecto, há muitos anos, bem mais jovem. Reescrevi. O “vira isopor” pretendia ser apenas um desfecho bem-humorado para o texto. Saudosismos à parte, o título original tratava de uma transformação, de uma alquimia. Ocorreu-me que, mais do que nossos gestos e palavras transformarem-se, como as pipocas, isopor, nós mesmos podemos ser vítimas desta maldição. E o pior, de uma dupla maldição: dos “por pouco” e dos “vira isopor”. Além de perdermos o tempo certo (vira isopor), ficamos nos lamentando por toda vida o desfecho de nossas escolhas (por pouco). E o passado se torna um amargo presente e não conseguimos nos livrar dele. Gruda feito carrapato e torna-se uma enfadonha e lamuriosa recorrente em nossas vidas.
Mas, há um jeito, uma esperança. Sempre há. Tão difícil como encontrar o tal melhor momento, mas possível. Trata-se de, como esta crônica, reescrever nossa vida. Não deixar para depois o bem a se fazer hoje. Santa Terezinha de Jesus dizia algo de suma importância: “...só tenho hoje para amar, só tenho hoje, ó meu Deus! Só tenho hoje para dar todos os sonhos meus.” (Adaptação A.C. Santini) . Algum de nós – por mais rico ou sábio que seja – tem posse ou domínio do passado ou do futuro? Ou pode acrescentar um minuto à sua vida, como diz Jesus?
O Pipoqueiro e a Santa tem algo em comum: a urgência. Urge – e é para hoje – vivermos! Ou, como diz o Evangelho: a cada dia basta sua preocupação... o pão nosso de cada dia nos daí “hoje”. Ou ainda o Maná no deserto que era a porção diária necessária, se se guardasse um pouco para amanhã, perdia-se, estragava-se. Como dizia Renato Russo:”...é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã...porque na verdade não há.”
O poeta Vinícius de Moraes tem uma frase interessante: “Meu tempo é quando.” Parafraseando-o, poderia dizer: “Meu tempo é hoje”. E você? Quando é seu tempo? Ontem? Amanhã? Ou o hoje que nos iguala e nos permite realizar bem o “Bem”?
Para finalizar, outra frase, esta de São Pio de Pietrelcina:” Ó, Senhor! O meu passado à Tua Misericórdia, meu presente ao Teu Amor, meu futuro à Tua Providência!” Belo lema para se viver. Hoje.
Grande abraço,
Saulo Soares
